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PSICOLARANJA

O lado paranóico da política

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O lado paranóico da política

"A questão Alemã"

Guilherme Diaz-Bérrio, 15.07.11

 

 

Muito se tem dito sobre a obrigação moral da Alemanha pagar a crise, e respectivos bailouts, sem protestar. Recentemente, decidiu juntar-se mais um argumento: a Alemanha benificiou com o Euro, foram os juros baixos que pagaram a reunificação, esses mesmos juros que colocaram os paises periféricos na falência, logo eles devem pagar a crise. In a nutshell, a culpa dos nossos males é deles, e da reunificação deles.

 

A minha primeira reacção, instintiva, quando leio este tipo de argumentos oscila entre clamar "barbaridade" e mandar as pessoas que professam tais barbaridades ler um livro ou dois de história. A segunda reacção é a que se segue: se as pessoas não vão aos livros de História, e se ficam por demagogia germanofóbica, venho eu trazer o livro às pessoas.

 

Antes de mais, temos de enderessar duas questões. A primeira é da que, todos lucraram com o Euro. Sem excepção. Se se pode dizer que o Euro potenciou exportações alemãs para o resto da Europa, também é verdade que o resto da Europa, em especial o Club Med (Portugal, Espanha, Grécia, neste caso) ganharam um enorme almoço gratis. Com o Euro deixaram de se financiar a 15 por ano ano, para se financiarem a uma confortavel taxa "germanica" de 3 a 4 por cento. E isto apenas foi possível porque, quando o euro foi criado, todos os financiadores julgaram que haveria uma garantia implicita alemã. Se estes meninos não pagassem a conta, a Mãe Germanica pagaria. Isto para dizer que o argumento, "eles têm de salvar o Euro porque foram os mais benificiados com ele" está gasto e errado. Eles já exportavam. Quem ganhou um Boom (que foi gerido de forma desastrosa por estes países) foi o Club Med.

 

A segunda questão a enderessar é a de que a Alemanha é, sempre foi, e continuará a ser no horizonte previsivel, o maior contribuinte liquido para a UE. Já aqui escrevi sobre isso: nos últimos 60 anos, fruto da "divída moral" por causa de Segunda Guerra Mundial, os Alemães não só pagaram a União como raramente protestaram (ao contrário dos segundos contribuintes liquidos, o Reino Unido, que tanto protestou que ganhou o "Cheque Inglês", durante o tempo da Senhora Tatcher, ou a França que é o maior recepiente liquido da Politica Agricola Comum). 

 

Agora o argumento que considero profundamente errado (retirado da caixa de comentários do Psico): 

saiu-lhes do pêlo? claro que sim. às custas da manutenção artificial de uma taxa de juro baixa que foi a desgraça para os pigs como se viu. para beneficiar um sofreram outros com o seu mau comportamento.

 

(...)

 

Mas lembro-me que a Alemanha queria impor, e bem, instituições sólidas europeias mas as suas estavam a falhar e teve que sobreviver financiando o leste com dívida pública a taxas mais baixas neste momento em que já não captava investimento.

 

(...)

 

Ora mesmo em cima do acontecimento a Alemanha através da célebre ditadura do marco, manteve taxas altas que de facto atraiam capital muito necessário para a dura reunificação.

 

Vamos lá aqui esclarecer uma coisa: a reunificação alemã custou, liquido, 1.3 mil milhões de euros ao Estado Alemão. Não estou a falar de "capital", ou "investimento", ou de "taxas de juro". Estou a falar aos cofres do Estado Alemão, ao contribuinte alemão, seja sob a forma de impostos, contribuições para a segurança social ou dívida pública. Estamos a falar de 40 por cento da sua economia, num esforço que durou de 1990 a 2005. 

 

Inicialmente o plano era financiar tudo com Dívida Pública Alemã, mas em 1992 o Bundensbank (o Banco Central Alemão, e o mais ortodoxo e duro do mundo desenvolvido) começou a protestar. É preciso ter em conta o contexto: Weimar deixou uma Memória Institucional muito dura nas autoridades monetárias alemãs. Eles são "inflacionófobicos". O Bundensbank fez duas exigências, que o Governo Federal seguiu: financiar a reunificação com impostos, e que ia aumentar as taxas de juro para conter a inflação. Apenas metade do valor exigido pela renificação veio pela emissão de dívida pública. O remanescente veio de uma politica orçamental extremamente austera: aumentos de impostos, redução da idade da reforma, aumento das contribuições, redução da despesa. O povo alemão mordeu a bala fiscal para se reunificar.

 

O papel do Marco Alemão não é o que se pinta. O Marco Alemão não era forma de financiamento. O Marco Alemão era a moeda mais estavel e menos inflacionária da OCDE. Facto do qual não só o Bundensbank se orgulhava, como se recusava a abdicar um milimetro que fosse. Quando foi criado, em 1979, o European Rate Mechanism (ERM), ele foi criado com um objectivo: preparar uma potêncial moeda única, reduzir a inflação e aumentar a estabilidade de alguns países (estamos em pleno choque petrolifero). O ERM foi na pratica ligar as moedas ao Marco, não para financiar a reunificação (estão a reparar nas datas?), mas sim porque o Marco era a moeda mais estavel e com a taxa de inflação mais baixa. 

 

A Alemanha não sobe as taxas de juro para atrair Capital (eles são ricos em Capital e tinha divisas e já na altura um excedente da Balança Comercial), mas sim para colocar um travão à inflação fruto da reunificação. (O Reino Unido sofre, no processo, porque em vez de reavaliar a moeda, no ERM, decide insistir na paridade, em 1992, até que quebrou sob o ataque de Soros. Um erro comum do Reino Unido: moedas fortes de mais.)

 

Não só isso, como, o Marco é sacrificado para garantir a reunificação. Para os mais desmemoreados, França e o Reino Únido são contra a reunificação. É segredo aberto que Miterrand tenta bloquear, e pede a Gorbatchev que a vete. Kohl só garante o apoio quando se compremete a uma União Monetária, sacrificando o DM.

 

Argumentar que foi depois o Euro, e a política de baixos juros do BCE, que ajudou a Alemanha é não ter em atenção o ciclo de taxas de juro. As taxas, há entrada do Euro, eram de 2%. E de 1999 a 2001 elas estão a subir. É apenas em 2001 que elas descem. Não para ajudar a Alemanha mas sim porque dois aviões bateram em duas torres e o mundo entrou em panico, aka, o 11 de Setembro. Depois, de 2003 a 2008, o BCE está, constantemente a subir taxas, de 1% para 3.25%. Se isto é uma política de descer os juros para ajudar a Alemanha, peço desculpa a expressão, mas eu "vou ali e já venho". 

 

O problema do Euro foi que não se contava com um pequeno pormenor: que os países do Sul actuassem como crianças. Quem se lembra do na altura governador do Banco de Portugal - Vitor Constancio - a dizer que "a dívida não era problema, Portugal era agora comparavel à Florida, endividem-se à vontade" (citação livre)? Aqui reside a responsabilidade, não na mitica (e não existente) política de juros baixos para financiar a reunificação alemã.

 

E aqui reside o problema intelectual dos alemães. Para eles o problema não é pagar ou ajudar. A última sondagem do Der Spiegel mostra mesmo isso. O problema deles, que lhes causa alguma perplexidade, é por um lado estarem a ver que estão a atirar dinheiro para um buraco negro, e em segundo lugar verem que os povos do Sul não estão dispostos a sacrificios para sairem da crise, e preferem culpar a Alemanha. Um povo que passou 15 anos a comer balas de impostos, moderação salarial, trabalhar mais, menos segurança social e de recessões sucessivas para se reunificar não entende esta postura.

 

Eu confesso que também não entendo, e partilho do pensamento Alemão.

 

Não é legitimo, politica ou financeiramente, continuar a lançar argumentos como este e outros (apelando à memória da Segunda Guerra Mundial) para forçar os Alemães a pagar. Não há discussão produtiva, ou negociação, que vá a bom porto assim.