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PSICOLARANJA

O lado paranóico da política

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O lado paranóico da política

Saúde Mental – O parente pobre do SNS

Raquel Baptista Leite, 11.05.20

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“Tenho uma gripe”. “Tenho uma otite”. Ou até… “Tenho um cancro”.

Qualquer uma destas frases será passível de ser dita por qualquer um de nós nas respetivas circunstâncias, sem grandes reservas.

“Tenho uma depressão”. “Tenho esquizofrenia”. “Tenho uma perturbação de ansiedade”. “Tenho bipolaridade”. São frases que, mesmo que verdadeiras, são tão menos frequentes de se ouvir.

O preconceito assola o tema da saúde mental - dos doentes aos profissionais de saúde. Por culpa de cada um de nós, a saúde mental é o parente pobre da saúde.

Segundo o grande estudo “The Global Burden of Disease”, constatou-se que as perturbações psiquiátricas são responsáveis por 40% dos anos vividos com incapacidade. Se em 2010 a depressão era a terceira causa global de doença, em 2030 prevê-se que será a primeira causa mundial para anos vividos por incapacidade, com agravamento plausível das taxas de suicídio e para-suicídio.

Perante factos, não há argumentos. A prevalência das doenças psiquiatrias é elevada. Se não ouvimos falar delas, é porque nós não falamos delas. Sim, nós. Os cidadãos, os profissionais de saúde, os doentes, os políticos.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define, desde 1948, saúde como um “estado de completo bem‐estar psíquico, mental e social e não apenas como ausência de doença ou enfermidade”.

Apesar desta clarificação da OMS sobre a definição de saúde incluir o bem-estar psíquico e mental, segundo o relatório da OCDE de novembro de 2019, temos das mais altas taxas de prescrição de ansiolíticos e antidepressivos da Europa. Sendo que isso não significa, que o estejamos a fazer bem; pelo contrário.

Se as recomendações internacionais são taxativas sobre a importância dos cuidados de saúde mental estarem sediados na comunidade, nos centros de saúde, próximos da população – colocando os Cuidados de Saúde Primários no centro dos serviços de saúde – Portugal também apresenta um Programa Nacional para a Saúde Mental na mesma linha.

O que falta então? Cumpri-lo.

Pelo nosso Portugal fora, temos cuidados de saúde mental centrados nos serviços hospitalares. Como se isso retirasse o estigma, como se isso facilitasse o acesso, como se não existissem dezenas de documentos que comprovam que o caminho não é esse.

Se o bem-estar das populações não tem sido o suficiente para captar a atenção dos políticos para colocarem este tema no topo da agenda, vamos então, falar de dinheiro.

Sabe-se que os custos diretos e indiretos associados às perturbações psiquiátricas, decorrentes das despesas assistenciais e da diminuição da produtividade (ex., desemprego, absentismo, baixas por doença, apoio a familiar doente), têm um enorme impacto económico nos orçamentos públicos, podendo atingir cerca de 20% de todos os custos da saúde.

Uma população sem saúde mental é uma população menos produtiva, mas mais grave do que isso, uma população menos feliz. E se falharmos na possibilidade de criar condições para que as pessoas possam ser felizes, então falhamos em tudo.

Será que o impacto da COVID-19 na sociedade Portuguesa terá impacto suficiente para centrar, finalmente, a discussão neste tema?

Esperemos que sim.

Como dizia… O caminho está delineado. Só falta cumprir.

Educação para a saúde e cuidados de saúde mental na comunidade, com equipas multidisciplinares preparadas

Consequências?
A felicidade como parente rico do SNS.

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