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PSICOLARANJA

O lado paranóico da política

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O lado paranóico da política

Os deuses devem estar com Covid-19

Rui Pinto Reis, 03.10.20

Numa altura em que julgamos que ninguém está a salvo, havia, até hoje, alguns, poucos, seres humanos que julgámos imunes à pandemia. Os grandes decisores políticos em exercício, fruto do endeusamento que fazemos dos cargos que ocupam, são, no imaginário comum, imunes a qualquer alteração do quotidiano dos comuns mortais. 

Donald Trump é o líder do mundo livre, goste-se ou não. E, pelas funções que desempenha, é uma das pessoas que ninguém acreditava que o novo coronavírus tivesse a ousadia de infectar. Provavelmente, nem mesmo Trump.

 

A questão que hoje se coloca, mais do que a saúde do Homem que essa só a biologia decidirá, é o impacto que a doença terá na campanha presidencial.

Os analistas políticos defendem que o problema do POTUS ditará o fim do candidato. Eu, em contracorrente, acredito que os analistas não podiam estar mais errados.

Facto: um chefe de Estado negacionista é atingido pelo problema que desvalorizou.

É justiça poética, dirão. - Talvez! 

É irónico… - É inegável! 

É prejudicial… - Tenho profundas e sérias dúvidas!

 

Donald Trump, além de Presidente, é um dos 7 milhões de americanos infectados pelo SARS-CoV-2. Tem agora mais uma coisa em comum com os restantes, a fragilidade perante um inimigo que está dentro de portas. Este problema arrasa com as reiteradas tentativas de Biden de o colocar num pedestal inalcançável ao cidadão comum. Neste momento, na sua vida pessoal, está a braços com a mesma questão que o mundo. Há maior prova de proximidade do que esta?

 

Vamos por pontos:

 

  1. A infecção de Trump humaniza-o e, numa altura eleitoral, não há nada mais vantajoso do que ter um eleitorado que sinta o candidato como um igual. Existem condicionantes inerentes à condição humana, como a empatia, que levam à identificação e, por sua vez, ainda que irreflectidamente, nos fazem condoer pela pessoa atrás do cargo.
  2. O líder do mundo livre está doente, mas quem dá a cara pela doença, quem será escrutinado, seguido e noticiado vezes sem fim é Donald, o candidato à Casa Branca.   
  3. Donald Trump podia ter gerido a pandemia doutra forma. Há 200 mil mortos que o podem garantir. Mas se um homem com mais de 70 anos, obeso e com problemas cardíacos passar pela doença com sintomas ligeiros, como poderão o democratas continuar a usar a pandemia como arma de arremesso?
  4. Qualquer desrespeito ou comentário à gestão do Presidente Trump relativamente à pandemia será, em altura de sensibilidades exaltadas, prejudicial à campanha democrata por se considerar aproveitamento político de uma pessoa fragilizada e doente. A verdade é que este é, precisamente, o calcanhar de Aquiles desta administração. Sem este trunfo a oposição fica extremamente condicionada nas considerações a 30 dias das eleições.
  5. O facto de Biden não ter testado positivo pode ser explorado como sendo resultado de um cumprimento escrupuloso das regras. No entanto, há um defeito nesta teoria. Joe esteve, sem máscara, numa sala fechada com ar condicionado ligado com, pelo menos, um infectado durante mais de uma hora e meia na passada terça-feira. 
  6. O internamento de Trump ou, na melhor das hipóteses, o seu confinamento, é o harmonioso canto das sereias para Biden mudar a sua estratégia de campanha, sair à rua e ir ao contacto directo com o eleitor para tentar aumentar a distância relativamente a Trump. Se por um lado é uma vantagem difícil de desperdiçar, por outro, é uma facada no que tem vindo a dizer, demonstrando aos americanos que não é confiável.

 

Estes seis pontos são efectivamente os game changers das presidenciais norte-americanas. Queira-se ou não, nenhum é favorável aos Democratas. 

Julgo que no futuro seremos obrigados a olhar para estas eleições e a resumi-las facilmente, com recurso a um velho ditado do futebol, adaptando-o:

É um contra um e no fim, ganha a Covid!

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