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PSICOLARANJA

O lado paranóico da política

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O lado paranóico da política

This is a Cold War

Essi Silva, 13.02.11

 

So you think that I'm alone
That being alone is the only way to be
...

This is a cold war
You better know what you're fighting for
This is a cold war
Do you know what you're fighting for

 

Venho falar-vos não duma guerra propriamente dita. Mas duma guerra de intelecto, de sobrevivência. O que é a vida senão uma luta de sobrevivência, maior ou menor? O inimigo? O desemprego jovem!

 

O grito do Ipiranga deu-se com a canção dos Deolinda. Um hino que só se canta, porque pesa no coração de todos nós. A realidade existe há muito. O pânico, também.

Entre os 83 mil em 2000 e 190 mil do final de Setembro do ano passado, a precariedade laboral é uma realidade.

Para quem? Os jovens. É para quem sai das universidades e dos politécnicos que os recibos verdes e os contratos a termo mais tem crescido. O INE estima que seja um crescimento de 129%, em comparação com os 5,8% para quem sai com formação inferior.

Para António Nóvoa, o reitor da Universidade de Lisboa, esta guerra deve-se sobretudo devido à "ideologia do capital humano, que trouxe aquilo a que designamos a armadilha do diploma, como se o facto de ter um fosse, por si só, um factor de sucesso e emprego - e hoje as pessoas percebem que não é, e passam de um diploma para outro diploma. Mas também à ideologia da precarização - deste manter as pessoas numa zona cinzenta, do recibo verde, do estágio, da bolsa, sem que lhes seja dada uma oportunidade de carreira."


A culpa não morre solteira.

 

Mercado - um mercado que não soube absorver as novas capacidades, nem tampouco as várias licenciaturas e milhares de licenciados dos mesmos cursos. Segundo José Reis, ex-secretário de Estado do Ensino Superior "A nossa estrutura económica é marcada por empregos onde há preferência pelas baixas qualificações". Para António Névoa houve "economia a menos" o que desiquilibrou a balança entre a oferta e a procura.

 

Crise - Quando o cinto aperta, come-se menos. E quando as empresas têm despesa a mais, o mais fácil é despedir. Ou seja, para além de não se contratar, atira-se mais uns milhões na procura incessante de um lugar ao sol. Ou pelo menos dum emprego. Talvez nem sempre se procure o emprego que se quer, ou para o que se foi formado. E vira-se costas ao trabalho, mas quando os bolsos ficam finalmente vazios, uma economista acaba por se contentar com um lugar atrás dum balcão duma qualquer loja. Se para o presidente do IEFP, o crescimento económico poderá absorver os licenciados, para mim, o problema antecede a crise.

 

Ensino - Sejamos francos: muito licenciado não sabe a sua língua materna como deve ser, quanto mais ser um bom profissional. Os exemplos multiplicam-se, seja pelo facilitismo das universidades, ou um problema que vem até do ensino básico, secundário e primário, nenhuma classe passa imaculada com profissionais mal formados para as suas tarefas.

Matias Ramos, bastonário da Ordem dos Engenheiros, relembra bem: "Há em Portugal perto de 600 cursos de engenharia, em cima da minha mesa tenho pedidos de parecer para 39 novos cursos. Alguém acredita que um país com a nossa dimensão precisa disto tudo?"

E verdade também seja dita, muitos dos nossos licenciados não se esforçaram, ou não tiveram de o fazer para obter o seu canudo. Se não demonstraram esforço antes, demonstrarão quando for altura de produzir?

 

 

Leis mais flexíveis não são para mim uma solução. Quem quer um bom trabalhador e competitividade, não pode estar sempre a mudar a sua mão-de-obra, caso contrário as garantias de produtividade, a lealdade, a competitividade em si são nulas.


Para Alberto Amaral, da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, o investimento "que andámos anos a fazer em tecidos de má qualidade, galos de Barcelos e esse tipo de coisas, isso morreu, na Europa não leva a lado nenhum. O que é preciso é mudar o que se produz, como se produz, o que se exporta". Teremos então que "esperar uma geração... e que os políticos não façam mais burrices".

Tempus fugit...


Ainda assim, a diferença entre o tempo que um licenciado e um não licenciado demora a arranjar emprego faz alguma diferença. Para o primeiro, será em média 8 meses, para o segundo, 15.

 

Podemos ganhar mais que os não licenciados e podemos encontrar emprego mais facilmente, mas será que com o risco de não trabalharmos para o que fomos formados, do nosso futuro ser uma incerteza, compensa passarmos 3, 4, 5 anos a estudar, para trabalharmos num país em que as portas se fecham cada vez mais?

Deveremos nós partir, tentar de novo, esforçarmo-nos mais nos nossos estudos ou resignarmo-nos com a esperança que um dia a mudança virá?

3 comentários

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    Rui C Pinto 14.02.2011

    Ah, caro Tell...

    Esse seu ponto c) dá-me arrepios... O estado não tem que fazer esse planeamento! O facto de o Estado pretender fazê-lo é que introduz uma distorção no mercado laboral. Os números clausus em medicina apenas provocam duas coisas: a falta de médicos e a falta de qualidade dos mesmos.
  • Imagem de perfil

    jfd 14.02.2011

    Rui e mais importante ainda a manutenção artificial de uma classe corporativista que não tem a minima razão de ser.
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