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PSICOLARANJA

O lado paranóico da política

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O lado paranóico da política

Cultura vs. Tradição

Rui C Pinto, 20.12.10

Existe uma linha ténue que distingue Cultura de Tradição. Esta diferença justifica uma séria reflexão, sobretudo quando dá origem a aceso debate quanto à subsidiariedade e financiamento da Cultura.

 

Actualmente, há a pretensão de tornar a cultura um bem sustentado do lado da procura. Porém, este método poderá ser aplicado apenas às expressões artísticas tradicionais. A Cultura é, por definição, toda a expressão artística que confronta a sociedade com os seus preconceitos, medos, desafios e limitações. O objectivo da Cultura tem de ser a projecção de uma sociedade no futuro, e não, o perpetuar das suas heranças culturais que se exprimem na tradição. Esta pequena (grande) diferença torna as expressões tradicionais sustentáveis economicamente, na medida em que resultam de uma manifestação de soberania das classes vigentes num determinado espaço social. Isto justifica, por exemplo, que por esse país fora, nos meses de Verão, se perpetuem milhares de romarias, procissões religiosas ou festas populares, sustentadas economicamente pela via do donativo das populações.

Porém, dificilmente se consegue financiar a Cultura sem recurso ao subsídio, na medida em que a Cultura não é conciliadora com o perpetuar das forças sociais vigentes. Por esta mesma razão, a Cultura não responde a mecanismos de procura, antes deve ser fomentada pela criação de hábitos desde a infância. Poderá questionar-se a necessidade da Cultura em tempos de crise.

 

É fundamental, sobretudo em períodos de crise económica, que se fomente o pensamento criativo e inovador e se procure confrontar a sociedade com os seus fantasmas, por forma a criar-se um potencial de criação gerador de futuro. Uma sociedade que sucumbe ao jugo da tradição é incapaz de se projectar no futuro. Por esta razão, é fundamental manter uma verba orçamental destinada ao subsídio de actividades culturais, quer na forma de projectos, quer na forma de instituições que desenvolvam essas mesmas actividades.

 

 

 

2 comentários

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    Rui C Pinto 20.12.2010

    Repare, todo o raciocínio que desenvolvi tem por base a ideia de que um país deve produzir bens culturais, como aspecto essencial ao seu desenvolvimento social e à sua projecção no futuro. Uma sociedade que não reflecte sobre si e não se projecta para o futuro está condenada ao atavismo da tradição. Foi assim durante muitos anos em Portugal.

    O apoio financeiro deve ser consequência da capacidade criativa e nunca do produto final. Se a necessidade de produção cultural se prende com a necessidade de confrontar a sociedade e de trazer a sociedade para um desconforto que cause evolução não pode definir o financiamento em função da comercialização do produto.

    Dou-lhe o exemplo que está tipificado no post. A Paula Rego, um nome da pintura que vai muito além de Portugal, a dada altura decidiu pintar acerca do aborto e as condições em que as mulheres o levavam a cabo em Portugal. A exposição desse trabalho levantou polémica e não foi, de todo, consensual neste pequeno rectângulo. Julga que se a Paula Rego tivesse concorrido a um subsídio estatal para pintar aquela realidade teria sido subsidiada?
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