Segunda-feira, 28 de Junho de 2010
Soares, o Federalista

Mário Soares, não tendo já um papel nacional a desempenhar se não o de fundador poeirento do PS, tem tentado nos últimos anos afirmar-se como a voz do federalismo europeu, em Portugal e na Europa.

 

Na homenagem que lhe foi feita em Arcos de Valdevez, Soares fez-se acompanhar dos espanhóis Frederico Mayor Zagaroza e Raul Morodo para proclamar que a Europa se encontra 'sem rumo'.

 

 

A 'visão' de Soares indica-lhe que é necessário haver 'políticas convergentes' entre Portugal e Espanha e que 'a Europa ou é federalista ou não é Europa'.

O ex-Presidente acrescenta ainda que a menos que a Europa se federalize totalmente '(...)vamos ser o extremo ocidental da Ásia, uma região pobre e sem influência'.

 

Mas como sempre, há algo de profundamente errado com a visão de Soares:

 

- A Europa só foi federalista no século XX e conseguiu sobreviver vários milénios sem união política. MAIS: todas as tentativas de união, directas ou indirectas foram sempre tentadas a favor de uma potência Europeia em especial e geralmente em detrimento das demais.

 

- Se a Europa tem sido federalista e está agora sem rumo, mais federalismo vai resolver o problema como?...

E que dizer da estrondosa vitória de partidos xenófobos e ultra-nacionalistas como clara oposição à mensagem federalista de centro-esquerda?

Só me ocorre prenunciar que se continuarmos a federalizar a Europa, o faremos até a extrema-direita dominar os governos da Europa e fizer um 'opting-out' total e final ...

 

- Soares e a sua tese da marginalização da Europa têm razão de ser. A Ásia, pela sua dimensão e localização, será o próximo centro do comércio mundial, substituindo o Atlântico.

Mas os ventos da história - que neste caso são soprados pela evolução tecnológica - não vão mudar, quer a Europa se federalize, quer não.

 

Outra coisa: repararam na contradição implícita? Se a Europa, enquanto extremo ocidental da Ásia, se vai tornar pobre e sem influência, que dizer então de Portugal se transportarmos esta analogia para o continente Europeu?

Não é justo dizer que Portugal é uma periferia ocidental pobre e sem influência na Europa?

Então e posto isto, vamos federalizar a Europa?! o que significaria uma devolução ainda maior de soberania a Bruxelas?!...

 

Uma outra contradição é o sentido de emergência e ansiedade que a ascenção das potências asiáticas provoca nos europeístas.

O problema é que as potências asiáticas não baseiam o seu poder em estruturas federais ou confederais, apesar de cooperarem em vários fóruns e organizações de cooperação política, comercial, etc.

Ora, se é na Ásia que se encontra o dinamismo geopolítico e este não faz uso de pseudo-federalizações pós-modernas, a Europa deve tentar unificar-se e tentar construir o que nenhuma potência - por alguma razão - não conseguiu até hoje porque ...

 

Finalizo sem sequer ousar ameaçar o tabu que existe na sociedade Portuguesa em relação a Espanha mas no qual peço que reflictam.


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uma psicose de Miguel Nunes Silva às 16:44
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26 comentários:
De Rui Cepeda a 28 de Junho de 2010 às 23:40
Parece-me fazes uma espécie de demonização da federalização...

Se o extremo ocidental da Ásia do Soares é exagerado, também não me parece que seja possível concluir muito relativamente ao futuro das federações porque não as existem na Ásia!

Achas que algum país europeu tem dimensão para competir por si contra as gigantes federações como o Brasil ou Estados Unidos da América?

Ainda sobre federações... a Suiça é uma federação, os EUA também!

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De Miguel Nunes Silva a 29 de Junho de 2010 às 08:51
1 - As federações são um modelo que tem razão de ser nalguns casos. Aquilo que a Ásia prova é que as federações de estados não são necessariamente o futuro.

2 - O Brasil não é uma federação, é uma república federativa mas os 'estados' que o compõem não são nem nunca foram autónomos, nem têm nenhuma identidade própria.

Os EUA deixaram de ser uma federação depois da Guerra Civil. Lincoln e Roosevelt transformaram os EUA numa república centralizada.
Não há nenhum estado que tenha a força identitária ou a autonomia económica para ser independente do resto dos EU.
Basta ver aliás como funciona a escola pública na América e verificar que o governo federal as controla a todas, desde o financiamento ao currículo.

Na verdade, tanto o Brasil como os EUA não são federações, são estados centralizados. A um nível continental claro está, mas repúblicas, não federações.

Historicamente falando aliás, nenhuma federação sobrevive muito tempo: ou se desagregam ou são centralizadas num estado.
Nós na Europa devíamos ter bem noção disto.
Aonde param a Confederação Germânica, a Comunidade de Lublin, a Liga Hanseática, o Império dos Habsburgo, o Império Austro-Húngaro, a Jugoslávia, a URSS?...

Quanto à Suiça, se é verdade que começou como uma federação e que soube manter o modelo em funcionamento, ao nível identitário a Suiça é um estado-nação como qualquer outro país europeu.
Ainda assim, até ao século XIX e à formação da Alemanha, a Suiça passou por muitas conturbações desde guerras civis a realinhamentos dos cantões-membro.

Finalmente temos o argumento da coerência cultural. É que enquanto que todos os exemplos que mencionei, mais bem ou mal sucedidos, existiram numa área específica com mentalidades moderadamente compatíveis, a UE enquanto federação conteria mentalidades tais como a finlandesa e a siciliana...

Derradeiramente é uma questão de empirismo. Eu acredito na história e tenho pouca fé em messianismos. Se as federações nunca resultaram enquanto plataforma estável e duradoura de nacionalidades e estados, não vejo porque possa resultar agora; muito menos num continente tão naturalmente averso a unificação como a Europa.

3 - É verdade que não poderemos competir sozinhos contra os grandes impérios asiáticos mas a solução é formar blocos económicos. Não abdicar da nossa independência.
Não sou contra a UE, sou sim contra o federalismo Europeu. Sou o primeiro a dizer que a UE trouxe e traz grandes benefícios mas a minha pátria não está em Bruxelas.

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De Miguel Nunes Silva a 29 de Junho de 2010 às 10:19


De José Pedro Salgado a 2 de Julho de 2010 às 11:02
Okapa. Já percebi.

Esqueceste-te do exemplo da Alemanha, que é uma federação a sério já há uns aninhos, onde os Estados federados têm uma identidade muito forte, e que não funciona particularmente mal por isso. Também te daria o exemplo da Bélgica, mas não sei se o futuro me dará razão.

Entretanto, eu diria que a transferência de mais poder para a UE não significa necessariamente o caminho para um federalismo europeu ou para outro qualquer caminho. É o problema de querer encaixar a UE à força em modelos do passado onde ela, pela sua inovação, não serve, por definição.

Finalmente, concordo contigo num pormenor. O próprio conceito de federação é bizarro. O exemplo alemão e o americano não têm nada a ver, e ninguém sabe muito bem qual é o melhor exemplo de uma federação (certamente não será a Suíça, no entanto, que é uma confederação, e também bem 'sui generis', por sinal).

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De José Pedro Salgado a 2 de Julho de 2010 às 11:42
Esqueci-me de uma citação de que eu gosto muito, mas cujo autor nunca me lembro:

"Há dois tipos de países na Europa, os que são pequenos e os que não sabem que são pequenos."

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De Rui Cepeda a 2 de Julho de 2010 às 12:01
LOL

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De Miguel Nunes Silva a 2 de Julho de 2010 às 12:22
Sim, a Alemanha e a Suiça são excepções, mas são excepções à regra.

Estes dois países têm coerência de mentalidade interna e longa tradição de partilha de poder por parte dos estados/cantões.

O mesmo não se aplica ao resto do mundo e à Europa como um todo.

Mais ainda, eu discordo que os EUA sejam uma federação de todo.

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De José Pedro Salgado a 2 de Julho de 2010 às 12:37
Podem ser excepções à regra, mas mostram que uma federação não está condenada ao fracasso. E quanto à coerência interna, é discutível - os Estados alemães têm uma identidade muito própria (a Bavária, por exemplo).

Se os EUA são uma federação ou não, não sei. Mas aí temos um problema:

- se partimos de um modelo teórico de federação (dos quais existem também vários) nenhuma federação, actual ou passada, lhes serve perfeitamente;

- se partimos das federações 'de jure' para criar um modelo de federação, não só partimos do definido para a definição, mas acabamos com uma tão vasta que engloba demais.

De uma forma ou de outra, não podemos dizer que uma federação para a Europa é uma má (ou boa) ideia.

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De Miguel Nunes Silva a 2 de Julho de 2010 às 12:40
Se implicar o fim da identidade Portuguesa, a conclusão só pode ser uma e não a outra.

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De José Pedro Salgado a 2 de Julho de 2010 às 12:49
Sim. Mas a identidade portuguesa não é uma donzela cuja virgindade tenha de ser protegida dos garanhões bruxelenses. A identidade portuguesa já é mais batida e resiliente do que pareces achar. E foi muito construída com o melhor (e não só) que existiu de todos que já conheceu.

Tem fé na nossa Portugalidade, que ela sabe mais do que tu pensas.

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De jfd a 2 de Julho de 2010 às 12:53
Amén!!!
Não são necessárias protecções artificiais de algo que é inato!

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De Paulo Colaço a 2 de Julho de 2010 às 14:47
subscrevo o Zé Pedro. A identidade portuguesa é rija como a barata: sobreviveria à bomba atómica.

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De Miguel Nunes Silva a 2 de Julho de 2010 às 14:59
Mesmo partindo desse pressuposto, não sairia fortalecida com certeza.

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De jfd a 2 de Julho de 2010 às 15:14
?!?

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De Lu a 3 de Julho de 2010 às 13:46

Se há os que assumem sem pudor o Federalismo Europeu, e a U.E, eu sou CONTRA a presença de Portugal nessa organização .
Federalismo para Portugal, só o Federalismo Lusófono, a União Lusófona é o verdadeiro caminho para Portugal, esse sim, é que seria o grande desígnio de Portugal, um desígnio da língua Portuguesa com os nossos irmãos da África, Brasil, e Timor

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De Miguel Nunes Silva a 3 de Julho de 2010 às 14:23
Pois Lu, isso eu já considero um extremo mas pelo menos é bom ver alguém a questionar o politicamente correcto em Portugal.


( ;-) winking at JFD)

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De jfd a 4 de Julho de 2010 às 09:07
wink back lol

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De Lu a 3 de Julho de 2010 às 13:53
e mais....o mundo não é a Europa !, Portugal é um país com a melhor posição geografica do mundo, NÃO È PERiFÉRICO, É CENTRAL, e muitos paises europeus, invejam isso ! Portugal é um pais de tradição universalista, atlantista, de vocação luso tropical.
Temos sido carneirinhos, indo atrás movimento dos outros, então, criemos o nosso próprio movimento federalista com os nossos irmãos lusófonos.



De Lu a 3 de Julho de 2010 às 14:38
Miguel

Extremo !?....então não perfeitamente viável uma União Lusófona !??, o que diriam há décadas atrás se seria possível uma União Europeia !??

É mais que natural uma União Lusófona que uma União Europeia, nós é que nos afastamos da nossa vocação natural, e desde da entrada na CEE, começamos a olhar de forma sobranceira o potencial inesgotável da lusofonia, até olhamos os nossos irmãos de língua com arrogância.

Estamos cegos com "sagrada e inquestionável" UE,
Tomemos o nosso próprio rumo, sem medo do desafio da União Lusófona, esse é o verdadeiro federalismo

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De Miguel Nunes Silva a 3 de Julho de 2010 às 18:02
Sim mas eu referia-me a ser-se contra a participação de Portugal na UE.

Isso é extremo.

Quanto ao projecto da Lusofonia, é uma questão de se fazer pressão junto dos nossos responsáveis políticos.

Mas pode começar por aqui: http://movimentolusofono.wordpress.com/

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De Lu a 3 de Julho de 2010 às 22:43
Um projeto da lusofonia, é inconciliável com um projeto europeu, ou se está num ou noutro, e na minha convicção o caminho lógico é o da lusofonia.

Logo, a saída de Portugal da UE é o que defendo, para que seja possível a construção da União Lusófona.


De José Pedro Salgado a 4 de Julho de 2010 às 13:08
Oh Lu, deixe-me fazer-lhe uma pergunta:

Se uma União Lusófona fosse para a frente, qual seria o país a ter a posição dominante na organização?


De Luis a 5 de Julho de 2010 às 16:33
José Pedro

É certo que haveria países mais fortes: Brasil, Portugal e Angola, mas não o seriam por direitos constituidos. A constituição seria democratica, igualitária, independente do estágio de desenvolvimento e nº de habitantes, o peso de voto era igual entre os estados aderentes, e concerteza o grau de solidariedade seria muito maior e menos egoista como acontece na actual UE, pois os laços linguisticos, culturais e até de sangue são inquestionáveis entre os paises lusófonos

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De José Pedro Salgado a 5 de Julho de 2010 às 17:16
Mas Luis, um sistemas de pesos e contra-pesos semelhante ao que sugere já existe na UE (e, segundo diz, não funciona).

Por outro lado, haverá sempre quem aponte outra faceta dos laços entre membros das duas instituições:

- nomeadamente que os Estados Membros da UE estão no mesmo continente e que têm milénios de História em comum, até antes mesmo dos/das mais velhinhos(as) Estados/Nações se poderem chamar tal, como Portugal e o Reino Unido (se bem que este último tem uma situação geográfica muito específica);

- ou ainda que, em bom rigor, esperar que Estados como o Brasil, Angola (sobretudo, mas não só) abandonem os seus parceiros regionais (Mercosur, UA) e financeiros (G20) para entrar num projecto de teor federalista com países dos 4 cantos do mundo com pouco interesse no que se passa na região dos outros possa ser esticar um pouco o argumento dos laços culturais;

- isto sem falar que a opinião pública dos países em questão não é necessariamente favorável a um projecto desse género connosco (que alguns poderiam mesmo apelidar de 'imperialismo cultural').

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De Luis a 5 de Julho de 2010 às 17:04
e mais....a sede poderia nem ser em Lisboa ou em Brasilia, poderia ser em Cabo Verde ou em São Tomé ou em Maputo, propositadamente


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