Sábado, 20 de Setembro de 2008
As setas do PSD - um texto de Pedro Roseta (Povo Livre 1975)

1. O nascimento de um símbolo

Tal como outros movimentos, também os partidos sociais-democratas adoptaram, desde início, diversos símbolos exteriores que pudessem, de forma rápida, sugestiva e uniforme, identificá-los perante o maior número de pessoas.
Assim, durante muitos anos, o Partido Social-Democrata Alemão serviu-se largamente de diversos símbolos, entre eles a bandeira encarnada e o cravo vermelho na lapela.
Mas um novo símbolo, forjado na luta contra o totalitarismo. estava destinado a sobrepor-se aos restantes.
A descoberta, em 1931, de um feroz programa de repressão que os nazistas pretendiam aplicar na Alemanha quando conquistassem o poder, através das famigeradas SA (Secções de Assalto), provocou grande agitação entre a população trabalhadora e o seu partido: o S.P.D. (Partido Social-Democrata Alemão).
Poucos dias depois, em Heidelberg, uma das muitas cruzes suásticas que já então os nazis reproduziam em grande quantidade nas paredes das cidades alemãs apareceu cortada por um traço grosso de giz branco.
Certamente algum trabalhador, cujo nome para sempre ficará ignorado, ao ver o símbolo odiado das forças totalitárias, não se pode conter e resolveu espontaneamente riscá-lo.
 
2. Significado do símbolo
Nascidas espontaneamente na luta dos militantes sociais-democratas contra o nazismo, as setas da social-democracia exprimiam muito bem a aliança entre as organizações dos trabalhadores reunidas na Frente de Bronze, a grande organização de luta anti-nazi criada pelo Partido Social-Democrata Alemão: o próprio Partido (SPD); os sindicatos; e a organização "Bandeira do Reich” com as organizações desportivas de trabalhadores. As setas simbolizavam, portanto, os três factores do movimento: o poder político e intelectual; a força económica e social; a força física. O seu paralelismo exprimia o pensamento da frente unida: tudo devia ser mobilizado contra o inimigo comum - o nazismo.
 
O símbolo das sociais-democracias espalhou-se depois largamente: era dinâmico e ofensivo, significava o avanço do Povo para um futuro novo e diferente. Traduzia bem, de acordo com o pensamento de Edward Bernstein, a importância fundamental do movimento, das conquistas sucessivas e progressivas realizadas por via democrática.
Lembrava aos sociais-democratas as qualidades fundamentais que lhes eram exigidas: a actividade, a disciplina e a união.
Ao símbolo do nosso Partido, as três setas, foram sucessivamente atribuídos outros significados que correspondem, na realidade, às linhas fundamentais do programa do PPD. As setas representam os valores fundamentais da Social-Democracia: a liberdade, a igualdade e a solidariedade; mostram que a democracia só existirá verdadeiramente se for simultaneamente política, económica e social.
Finalmente, as cores simbolizam movimentos e correntes de pensamento que contribuíram para a síntese ideológica e de acção da Social-Democracia: a negra, recorda os movimentos libertários do século passado, a vermelha, lembrando as lutas das classes trabalhadoras e dos seus movimentos de massa, e a branca, apontando os valores do homem, a tradição Cristã e humanista da Europa consubstanciada no Personalismo.
Em resumo, o símbolo do P.P.D. expressa bem a nossa vontade irreversível de ascensão, de caminhada com todos os Portugueses, para um futuro diferente, para a construção de uma sociedade nova, na Justiça e na Liberdade.
 
(1) S. Tchakhotine, “A mistificação das massas pela propaganda política”


uma psicose de Paulo Colaço às 16:11
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13 comentários:
De Paulo Colaço a 20 de Setembro de 2008 às 18:43
Uma nota histórica para conhecer ou recordar.


De Alberto Fernandes a 21 de Setembro de 2008 às 00:07
Apoio entusiasticamente a publicação deste texto. Se há coisa, enquante militante, de que sinto falta é de literatura sobre a história do nosso Partido, a sua doutrina fundadora e o pensamento político de Sá Carneiro. Tirando dois volumes de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a fundação do PSD, que acabam por ser mais a narrativa dos acontecimentos do que o debruçar sobre a doutrina fundacional do Partido, não se encontra nada no mercado. De vez em quando, com sorte, vou encontrando nos alfarrabistas livros do início dos anos 80 sobre o pensamento de Sá Carneiro, mas um tanto ou quando desgarrados em termos de apresentação do mesmo. Tive oportunidade de colocar esta questão na UV 2008 ao Dr. Alexandre Relvas, que amavelmente me respondeu dizendo que iria tentar colmatar essa falha no Instituto Francisco Sá Carneiro.
Entretanto, obrigado Paulo.


De Nélson Faria a 21 de Setembro de 2008 às 13:54
Não há política sem memória.

Não podemos saber para onde vamos se não soubermos de onde viemos.




De Tiago Laranjeiro a 21 de Setembro de 2008 às 17:08
Para o Alberto Fernandes:

Estou a ler neste momento uma tese de mestrado sobre a evolução do PSD que foi publicada em 2001.

"PSD. A marca dos líderes", de Nuno Manalvo, publicado pela Editorial Notícias.

Na bibliografia desse livro encontrarás várias referências para outras obras sobre a história e evolução do partido.

Ainda assim, concordo contigo: é pouco. E o pior é mesmo a falta de uma obra de referência sobre a vida e o legado de Francisco Sá Carneiro, que todos veneram mas muito poucos conhecem realmente.


De gaminha a 21 de Setembro de 2008 às 21:02
O SPD de Leonard Bernstein era também o SPD de Karl Kautsky e de Rosa Luxemburgo e, há época, um partido marxista. Tinha divergências históricas com as linhas marxistas dominantes (nomeadamente com o estalinismo) mas, apesar de tudo, era um partido marxista que defendia que era uma necessidade histórica e moral ultrapassar dialecticamente uma sociedade cujas formas de organização da produção fossem feitas com base na propriedade privada. Trocando por miúdos, o SPD que aqui se está a referenciar é um SPD anti-capitalista e que não têm qualquer relação histórica ou ideológica com o PSD. Tentar atribuir de forma indirecta uma ligação histórica do PSD com o movimento anti-fascista alemão SPD é rebuscado e duvido que a maioria dos participantes deste blog se reveja nas suas raízes.
De qualquer forma, gostaria de saudar a discussão política com que este blog nos brinda, ainda que não pertença ao mesmo quadrante político.

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De Paulo Colaço a 21 de Setembro de 2008 às 22:03
Caro Gaminha,
obrigado pela sua participação e palavras de apreço pelo Psico.

Quanto às referências e "links" históricos, devo lembrar que se trata de um texto datado.

Foi redigido em 1975 por um "monstro sagrado" do PSD, Pedro Roseta, um dos nossos ideólogos dos inícios.

Tudo o que está escrito deve ser lido à luz desses tempos.

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De Nuno Bastos a 21 de Setembro de 2008 às 21:59
Post muito oportuno para a instrução dos militantes e simpatizantes do PSD que acham piada às bandeiras com uma seta apenas

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De Paulo Colaço a 21 de Setembro de 2008 às 22:21
ehehehe.
Caro Nuno Bastos, um comentário subtil (qb) mas não nos esqueçamos que a "seta uníca" foi criada por Durão Barroso...

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De A. Costa a 21 de Setembro de 2008 às 23:08
Caro Paulo Colaço,
Aplaudo o post.
Fiz referência no dia 04-07-2008 num encontro com Pacheco Pereira e antes, no dia 01-07-2008 (num comentário a um post de Inês Rocheta Cassiano) sobre este exacto tema.
Pode haver mudança de rumo mas a história e as raizes devem ser sempre honradas. Vale para as intituições como para o mais comum dos cidadãos.
Cumprimentos,
A. Costa


De jfd a 21 de Setembro de 2008 às 23:14
Também acompanho A.Costa no aplauso.
A história é para se viver, guiando o presente para um bom futuro!



De Alberto Fernandes a 22 de Setembro de 2008 às 21:40
Obrigado pela dica Tiago.

Para o Gaminha: acho que o texto do Pedro Roseta, apesar de ser de 74, não está atingido de nenhum excesso da época. Mais, aquilo que realmente interessa no símbolo não é o posicionamento do SPD, mas o que signiifcavam aquelas três setas em cima da cruz suástica, é essa a mensagem que foi retirada para as setas do PSD. Imagino o quão difícil deve ser arranjar "novos" símbolos para um novo partido, por isso, é impossível que os escolhidos sejam sempre imaculados. O que interessa é a força da sua mensagem, e aquilo que pretendemos inspirar a quem que se quer juntar ao partido.

Estava aqui um bom tema (a questão das origens históricas do PSD) para se fazer uma psico-conferência! Difícil deve ser é arranjar os oradores certos!


De gaminha a 23 de Setembro de 2008 às 00:09
A verdade é que existe uma apropriação simbólica aquando da escolha do símbolo. Esta reporta de forma simbólica directamente para o outro. E neste caso a mensagem (independentemente dos constrangimentos) é muito clara. A imagética pretendida com a apropriação do símbolo não é independente da natureza Politica e Histórica do objecto da apropriação (SPD). Defendo aliás que, ao tentar resgatar uma imagética anti-fascista, o PPD tenta recriar para si uma história que não é a sua (para evitar falsas polémicas não defendo que o PPD tenha ou tenha tido qualquer desvio fascista). Conclusão, o PPD, ao escolher para si um símbolo que reporta directamente à historia de um partido marxista, tenta criar uma imagética marxista e anti-fascista. A escolha parece ter sido mais táctica (para provavelmente evitar ataques políticos que colocassem o PSD no lote de partidos "filhos do regime", a famosa ala liberal), do que ideológica.


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