Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008
Transportes Aéreos para os Açores: um mau modelo

 

 

Contribuição do Prof. Mário Fortuna para a reflexão no Psico sobre o preço dos transportes aéreos dos Açores

 

Um passageiro residente dos Açores paga, actualmente (Setembro de 2008), ao abrigo da concessão de serviço público, 293 euros por uma passagem de ida e volta para o continente. O Estado suporta, ainda, mais 87 euros. As companhias aéreas arrecadam 380 euros por passagem completa, sem condicionantes. O passageiro residente não tem opções porque o preço é fixo. Pode apenas reduzir ligeiramente o seu custo total se reservar e pagar a passagem, directamente, via internet ou através do call center da Sata. Nunca foi possível a qualquer residente comprar um bilhete pelo preço estabelecido no concurso, devido à taxa de emissão do bilhete.
Mesmo assim, este não será um bilhete caro, em termos comparativos, para um serviço de características similares. Vale para qualquer dia da semana, a reserva pode ser feita a qualquer momento e sujeita a qualquer alteração, quantas vezes o passageiro pretender. Bilhetes com estas características são sempre caros. Basta fazer um exercício de comparação com o que acontece mesmo nos percursos mais concorrenciais.
Qual o problema então? O problema está exactamente na rigidez do modelo que não permite ou não tem proporcionado a multiplicidade de outras opções que, normalmente, existem para quem tem disponibilidade para planear as suas viagens e consegue gerir os dias da semana em que viaja.
O serviço público, no caso dos Açores, vem associado a uma rigidez total que só beneficia um número limitado de utentes.
É, pelo exposto, necessário flexibilizar com um novo modelo.
É imperioso, também, acabar com o mecanismo da taxa de emissão do bilhete: deve comprar serviços adicionais apenas quem quer.
Pouco transparente é, também, o mecanismo usado para imputar a taxa de combustível. Não é claro como funciona e já aconteceu as duas empresas que operam a rota dos Açores utilizarem, na mesma altura, para a mesma concessão, critérios diferentes.
É inquestionável que o preço dos combustíveis deve impor ajustamentos, para cima e para baixo. Estes, no entanto, devem ser totalmente transparentes para o utente – não são. Por isso o modelo deve ser alterado.
Finalmente, o modelo actual de concessão contempla cinco “gateways” para os Açores, num só pacote. É uma imposição onerosa que levou, naturalmente, à constituição de um monopólio de facto, circunstância indesejável que só veio prejudicar o bem-estar geral.
Tudo somado, pode dizer-se que o actual modelo é opaco, ineficiente e rígido, traduzindo-se em preços elevados para os residentes e não residentes, prejudicando a competitividade dos Açores e o bem-estar dos seus residentes.
Nestas circunstâncias impõe-se mudar o modelo, para o bem dos cidadãos.

 

 

Autor: Prof. Mário Fortuna



uma psicose de PsicoConvidado às 12:41
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9 comentários:
De Luis Melo a 17 de Setembro de 2008 às 14:55
Sem dúvida o modelo não é bom... Gostaria de saber quais as diferenças para o caso da Madeira...


De Paulo Colaço a 17 de Setembro de 2008 às 15:31
Antes de mais, um agradecimento ao Prof. Mário Fortuna pelo texto que nos remeteu.

A verdade é que poucos portugueses sabem a verdade sobre os preços altos que os Açorianos pagam nas suas viagens para o continente.

É o modelo que está errado: na realidade, estão todos a pagar por um serviço de que não precisam - a super-flexibilidade das suas passagens...


De Octávio Pedro a 17 de Setembro de 2008 às 18:26
Já agora, de quando esse modelo?
Isso é importante saber, porque tão culpado é aquele que não muda o sistema como aquele que o criou.


De Alberto Fernandes a 17 de Setembro de 2008 às 18:56
Concorrência já e em força para os Açores! Daqui a um ano vou estar curioso com os resultados dos vôos da Easyjet de Lisboa para a Madeira. Pena que ainda ninguém se tenha lembrado do Porto...


De João Marques a 17 de Setembro de 2008 às 19:53
Acho que o problema não é de memória, Alberto, é mesmo de vontade dos interessados, leia-se TAP e ANA e não os portugueses como deveria ser...




De Luís Nogueira a 17 de Setembro de 2008 às 21:04
Acho que este é um dos casos onde o mercado interno não funciona bem. Os preços são altos, os consumidores são prejudicados, apesar do serviço ser de qualidade, segundo dizem. Falamos em proximidade, em diminuir a insularidade, em turismo e em tantas oportunidades, com que fundamento? Com o custo das passagens aereas tão alto, constituí-se um entrave ao desenvolvimento dos Açores.


De João Marques a 17 de Setembro de 2008 às 22:47
Dá que pensar: se uma low cost conseguia fazer preços mais baixos que raio de serviço público é este? Serviço a quem? E qual é o público?


De Alberto Fernandes a 18 de Setembro de 2008 às 03:20
"Lembrado" a Easyjet ou a Ryanair, se fosse pela TAP o Sá Carneiro estaria em estado terminal, o tal apeadeiro...


De Elsa Picão a 18 de Setembro de 2008 às 20:57
Quero começar por agradecer ao Prof. Mário Fortuna por ter aceite dar voz a este problema através do PsicoLaranja. Pessoalmente, desconhecia a situação.

Como já aqui foi dito a rigidez e ineficiência do modelo podereiam ser colmatas através da flexibilização do mercado, isto é, maior concorrência. Da exposição feita parece-me que o principal entrave a uma maior liberalização do mercado são os elevados custos de entrada, 5 "gateways", o que inevitavelmente propicia uma situação de monopólio.

Ainda antes de, como ja aqui foi referido, apontar a solução lowcost, pergunto-me porque começar por se flexibilizar o modelo de compra dos bilhetes? Porque é que mesmo havendo apenas uma empresa no mercado ( e há casos em que o mercado só tem capacidade para uma empresa), esta não disponibiliza vários tipos de bens?

É inadmissivel que o beneficio seja captado apenas por uma pequena franja de passageiros.


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