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PSICOLARANJA

O lado paranóico da política

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O lado paranóico da política

Directamente da 10° Universidade de Verão...

Isa de Pinho Monteiro, 29.08.12

Este ano a Universidade de Verão (UV) é ainda mais especial por duas razões. Em primeiro lugar, porque se assinala a décima edição, onde será feita uma reflexão sobre a evolução deste evento de formação ao logo de uma década e, em segundo, por se realizar em simultâneo a “Universidade de Verão do Partido Socialista”, após um interregno desde 2003. De referir que a “Universidade de Verão do PS” tem uma duração mais curta e não propriamente com carácter educacional de alunos.

Em Castelo de Vide, encontram-se 100 participantes seleccionados entre mais de três centenas candidatos, e com idades compreendidas entre os 16 e 30 anos. A selecção é realizada com base no currículo, região do país e respostas ao questionário de candidatura.

Na Segunda-feira, Berta Cabral falou sobre o seu plano de crescimento para os Açores e sobre a necessidade de maior interacção entre ilhas. Na Terça-feira, dois grandes oradores marcaram presença, o Prof. Doutor Adriano Moreira e o Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa.

Da aula do Prof. Adriano Moreira intitulada “Há sinais de esperança num mundo em Crise?”, destaco a referência à situação de “anarquia mundial”, em que a relação de confiança se encontra afectada de uma forma severa.  De facto, parece que existem órgãos que tentam estabelecer a Paz, mas os países estão debilitados a esse nível. Os crimes contra a Humanidade continuam. Em África há crianças a combater com armas produzidas em países de economia avançada. Tudo isto acontece num clima de ignorância. Faço aqui um parênteses para uma questão que me inquieta. Em 2008 fiz uma viagem aos Balcãs. Fiquei impressionada com as marcas de uma guerra tão violenta, que aconteceu tão perto de nós. Ainda não consegui perceber o desempenho das Nações Unidas nesta guerra e de outras organizações para a paz. Em Sebrenica ainda se respira indignação, injustiça e dor. O massacre foi em 1995 e parece-me que ainda ninguém conseguiu explicar como Humanos permitiram que tal acontecesse.

O Prof. Adriano Moreira referiu que a Europa tem de saber lidar com peso da história porque na Europa não existem vizinhos, mas sim íntimos inimigos. Utilizou ainda o termo de “privatização” da guerra e indicou que as estatísticas nunca são verdadeiras, uma vez que só dizem respeito aos soldados.

Sobre o tema da educação, o Prof. Adriano Moreira alertou para a emigração de cérebros e defendeu o ensino nas Humanidades na interdisciplinaridade. O acordo ortográfico não faz muito sentido, já que a língua está associada a valores específicos. No Brasil, por exemplo, existem influências culturais africanas, alemãs, japonesas e indígenas com as quais os Portugueses não se identificam. A frase que mais gostei desta aula foi dita a respeito dos valores da propina, que no fundo são taxas, que nunca deveriam condicionar o acesso à educação por todos: “as pessoas distinguem-se na forma como vivem e não da forma como ganham a vida”.

O Professor Marcelo Rebelo de Sousa trouxe-nos a aula “Os velhos-novos actores políticos na Democracia do século XXI”, na qual apresentou vários tópicos sobre diferentes épocas da política e sociedade em Portugal, fazendo sempre relação com a  evolução da comunicação social. Começou por caracterizar a política dos anos 70, em que o advento da democracia chegou demasiado tarde. Nesta altura, a televisão era pública, tendo havido o seu assalto partidário. Havia uma forte influência estrangeira, os debates eram todos ideológicos e a política fazia-se pelas massas. A segunda fase situa-se entre 80 e 85, fortemente marcada pela subida da importância da mulher na sociedade, mas de também por uma maior volatilidade do sistema. Surge a AD, depois o PSD, que passa de partido de militantes a partido de militantes e eleitores. A terceira fase é o Cavaquismo. O papel da mulher é ainda mais forte, surge uma comunicação social em que o discurso é cada vez mais curto e aparece o conceito de política anti-política. A igreja católica começa a remodelar a sua estrutura, uma vez que existe um faixa etária em falta. O fim do Cavaquismo coincide com o início da televisão privada. Começa haver a política da televisão. A regionalização conhece a sua primeira morte com a divisão dos regionalistas. O início do Socialismo começou então com aquele que (ainda) é, provavelmente, o primeiro ministro mais querido dos Portugueses, Guterres. Está época é marcada pela imagem e televisão. Há o envelhecimento da população e a escolha para mais Europa e mais poder. A RTP perde a liderança para a SIC. Uma grande euforia acompanha depois a Expo98 e a inauguração da Ponte Vasco da Gama. Há protagonismo dos jovens, consenso em relação ao Euro ao qual chegamos, os Espanhóis ganham peso, há o regresso a África e reforço dos laços do Brasil. Emigrantes de Europa vêm para Portugal.  Há a segunda morte da regionalização. O Socratismo aparece com cansaço, com refluxo. A internet começa a ter um papel mais importante, nomeadamente a blogosfera e as redes sociais. Do passado vem a ideia de um país católico, mas a realidade é minoritária. A mulher tem um papel decisivo. As pessoas andam à procura de algo... Passa a haver um novo país, de teenagers, globalizado, incompreensão do que se passou, internacionalização, um país velho e insatisfeito, desempregado. Um pais infoexcluído, utiliza a Internet mas não de forma participativa. É um pais que não lê e se reporta pela televisão. Temos velhos partidos que se precisam de renovação. Os últimos dados estatísticos mostram que a natalidade de Portugal é baixíssima. Os partidos políticos estão velhos e não surgiram novos partidos. Os indignados não conseguiram organizar-se e, movimentos tais como os de Alegre e Fernando Nobre, passaram...Para o futuro, espera-se uma democracia mais participativa, com a internet e a televisão generalizada. A mulher passa a ter um papel decisivo. Segundo o Prof. Marcelo, a saída da crise será LENTA e SEGURA, sem economia radical e sem a euforia do passado de 1997 a 2000. Termina apelando à re-descoberta dos valores e desafia os alunos a terem modelos de vida, isto é, a saberem como querem viver. Além disso, existe hoje uma responsabilidade muito importante: o não esquecimento dos mais velhos, para que não existam aqui realmente dois países. 

 

Agradeço revisão de texto a Margarida Balseiro Lopes. 

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