Terça-feira, 31 de Julho de 2012
Aos que resistem!

Na Síria, onde o povo está a ser massacrado por quem o devia proteger, há quem não desista de nos fazer chegar a verdade. Os novos meios de comunicação são a arma dos resistentes. Em sua homenagem, e realçando a importância das “novas tecnologias”, regresso ao Psico com um dos mais fortes poemas portugueses. Porventura o meu preferido.

 

 

Notícias do Bloqueio, de Egito Gonçalves

 

Aproveito a tua neutralidade,

o teu rosto oval, a tua beleza clara,

para enviar notícias do bloqueio

aos que no continente esperam ansiosos.

 

Tu lhes dirás do coração o que sofremos

nos dias que embranquecem os cabelos…

tu lhes dirás a comoção e as palavras

que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

 

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,

sustentando a defesa à nossa volta

- único acolchoado para a noite

florescida de fome e de tristezas.

 

Tua neutralidade passará

por sobre a barreira alfandegária

e a tua mala levará fotografias,

um mapa, duas cartas, uma lágrima…

 

Dirás como trabalhamos em silêncio,

como comemos silêncio, bebemos

silêncio, nadamos e morremos

feridos de silêncio duro e violento.

 

Vai pois e noticia com um archote

aos que encontrares de fora das muralhas

o mundo em que nos vemos, poesia

massacrada e medos à ilharga.

 

Vai pois e conta nos jornais diários

ou escreve com ácido nas paredes

o que viste, o que sabes, o que eu disse

entre dois bombardeamentos já esperados.

 

Mas diz-lhes que se mantém indevassável

o segredo das torres que nos erguem,

e suspensa delas uma flor em lume

grita o seu nome incandescente e puro.

 

Diz-lhes que se resiste na cidade

desfigurada por feridas de granadas

e, enquanto a água e os víveres escasseiam,

aumenta a raiva

                        e a esperança reproduz-se.



uma psicose de Paulo Colaço às 16:16
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3 comentários:
De Paulo Colaço a 31 de Julho de 2012 às 16:37
"O regresso dos que nunca partiram" é um filme fictício que podia constar como nota de rodapé deste post.
Espero que este seja um regresso aos posts.
O tema é negro e suscita várias perguntas.
"Para que serve a comunidade internacional?", "o princípio da não-ingerência faz de nós cobardes ou cúmplices?", "até onde é lícito ficar parado?", são algumas delas.

Enquanto isso, há quem não se canse de mostrar ao mundo o resultado da nossa inacção.


De Miguel Nunes Silva a 31 de Julho de 2012 às 17:31
Pensei que fosse o Rui a provocar-me mas afinal és tu.
Tenciono responder ;-)

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De Paulo Colaço a 31 de Julho de 2012 às 17:34
Avança! Não gosto de passar pelos pingos da chuva :)

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