Domingo, 15 de Janeiro de 2012
Crónicas de um jovem sem futuro (XIII)

A moda é o empreendedorismo. Surgiu há uns anos, estava eu a acabar a licenciatura. Multiplicaram-se cadeiras de empreendedorismo e gestão de risco pelas universidades. Era preciso que os meninos empreendessem. A nós, alunos, aquilo soava a evangelização. Diziam-nos que não importava se havíamos estudado química, informática ou estudos africanos, tinham oportunidades únicas de franchising para nós. A nós, alunos, aquilo soava a televendas. 

 

Houve quem agarrasse a "oportunidade". Há dias encontrei o Rogério, um antigo colega de faculdade, numa conferência sobre empreendedorismo. Engenheiro mecânico, um ano mais velho que eu. Apresentou-se como empreendedor. Empreendeu abrindo uma loja de produtos tradicionais portugueses "modernizados" na ribeira do Porto. Uma espécie de loja de souvenirs onde vende sabonetes Ach Brito e galos de Barcelos todos pintados de preto. A mim, o Rogério parece um comum empresário que investiu na criação do seu próprio posto de trabalho, abrindo a milionésima nano-mili-micro-pequena empresa do sector terciário. O Rogério falou-nos de gestão de risco. De como se deve apostar em nichos de mercado, na diferenciação de produto, na criação de empatia no cliente fazendo a ponte entre produtos tradicionais com valor afectivo e a sua comercialização para novos mercados (leiam-se turistas) através de design inovador e da sua reinterpretação. A mim, aquilo tudo soou a banha da cobra, sobretudo vindo de quem se limita a vender um galo de Barcelos preto, sem que tenha sido sua a ideia de o pintar assim. Mas são estes os empreendedores modernos. Uma espécie de empresário que aprendeu a teoria e cuida da aparência. Por si só, uma notável evolução! 

 

Costumo dizer que o empreendedorismo se faz no balcão do banco. Não é em cadeiras de inovação nos planos curriculares de cursos universitários nem em conferências dedicadas ao tema, nem em sessões evangelizadoras desses espertalhões da vida moderna que se dedicam ao "entrepreneur coaching". O Rogério é um deles. É um "entrepreneur coach", sem que nunca na vida tenha empreendido nada, a não ser abrir uma loja de souvenirs.

 

Devíamos estar todos, jovens nascidos na década de 80, preocupados com a inovação e o empreendedorismo. Mas sem deixar que o tema seja, mais uma vez, deturpado pelo chico-espertismo português onde, invariavelmente, quem tem olho é rei e atira areia aos olhos dos outros... Devemos todos ser mais exigentes, afinal arrogamo-nos a "geração mais qualificada de sempre". Nós, jovens nascidos na década de 80, temos de endereçar o ponto fulcral. Temos de exigir que o Estado controle a despesa pública e liberte para a economia o crédito necessário para que possamos "empreender". Temos de lutar por condições fiscais vantajosas para quem cria o seu posto de trabalho. Temos de lutar por garantir a quem arrisca o direito ao subsídio de desemprego no caso de insucesso. 

 

Por enquanto aceitamos que nos digam que temos de ser empreendedores, ainda que nenhum banco esteja em condições de correr esse risco connosco.



uma psicose de Rui C Pinto às 14:45
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2 comentários:
De k. a 17 de Janeiro de 2012 às 11:48
E emigrar, não?

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De Rui C Pinto a 17 de Janeiro de 2012 às 11:53
Calma, k., lá chegaremos.

Estás a antecipar o desfecho dramático...

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