Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011
O fim do Euro?

Por estes dias muitos falam do fim do Euro: Economistas, Gestores, Jornalistas, Advogados, Professores, Taxistas e até Sociólogos!

 

Assim, importa fazer várias questões:

 

1. O Euro vai mesmo acabar?

Pouco provável, no curto ou médio prazos (deixemos o longo para outros artigos). Afinal, a Grécia representa menos de 2% da área Euro e Irlanda e Portugal são ainda mais pequenos. Espanha e Itália iam pelo mesmo caminho, mas o BCE comprou tanta dívida destes que eles agora até podem oferecer mais ajuda à Grécia. O Euro não vai acabar por 2% da área estarem em dificuldade.

E se acabasse, isso não era motivo para acabar a UE ou acabar a paz que esta trouxe. Por favor pequeno Napoleão...

 

2. A Grécia vai ser expulsa?

Talvez. Mesmo que não seja nestes dias, o problema existe e é sério: a Grécia andou a "estimular" a economia dando dinheiro a improdutivos e a sectores sem valor para exportação (casas, transportes internos, fundações diversas, ...) e portanto agora a Economia nem produz o necessário para manter o nível de vida, nem para exportar para pagar a dívida. Vai doer e aqueles mimalhos não passam sem as suas regalias. Se o país como um todo não aceitar apertar o cinto, o dinheiro vai faltar e os parceiros Europeus podem-se cansar de bancar reformas de luxo e todas as demais regalias gregas.

Mas claro que se for expulsa do Euro não tem de ser expulsa da UE.

 

3. Se for expulsa do Euro, qual o custo para os Gregos?

O habitual nestas situações: convulsões sociais, cortes cegos na despesa do Estado, regresso à moeda nacional, corrida aos bancos para levantar depósitos em Euros (onde só estão 6% dos depósitos), colapso do sistema financeiro, encerramento das empresas que dependam demasiado de financiamento, desemprego à Espanhola, contração forte da Economia (para níveis dos anos 90!), inflação galopante, perda de valor das poupanças de quem as tenha em moeda nacional, ...

 

4. Se for expulsa, qual o custo para as outras Economias?

Muitos bancos mundiais têm activos gregos, sejam acções, sejam obrigações. Além disso os Gregos consomem muitos bens importados.

Assim, uma onda de choque iria certamente percorrer a Europa e o resto do mundo.

Portugal, numa situação já difícil, iria sofrer de várias formas:

- Restantes países ponderariam 2x ter dívida Portuguesa: "se aqueles não aguentaram, estes...", elevando o custo do endividamento

- Bancos portugueses teriam de levar a custos os activos Gregos que deteem (particularmente grave no caso do BCP) e teriam mais dificuldade em financiar a economia, para além de possivelmente aumentarem taxas e comissões aos seus clientes

- Exportações Portugesas para a Grácia e para economias muito ligadas à Grega (ex: França), poderiam ser afectadas

Estas repercussões não seriam muito significativas... se Portugal estivesse bem e respirasse saúde. Na situação actual...

 

5. Com todos estes custos, as outras economias não perdiam menos em ajudar os Gregos?

Eles é que estão a recusar a ajuda.

Os países Europeus disseram: "nós vamos ajudando se vocês se forem ajustando, para que daqui a uns anos só gastem o que teem (ou então a Europa andaria a trabalhar para lhes permitir andar na boa vida!).

E eles aparentemente preferem ficar sem dinheiro nenhum para pagar salários e pensões em vez de fazer esta aterragem que, apesar de não ser suave, seria bem mais controlada.

 

6. Isto não é jogo do 1ºM deles?

Talvez.

Farto da contestação nas ruas, ele assim obriga a oposição e os manifestantes a escolherem: ou a "austeridade" ou o "colapso".

Mas lembra um 1ºM que, cansado de apresentar austeridades, resolveu convocar eleições antecipadas e, se a memória não me falha, este 1ºM não se deu muito bem e dizem que agora foi filosofar para longe.

Fica muito bem chamar o povo às urnas, mas é um risco elevado da parte dele. E nada lhe garante o resultado numa situação tão volátil como a actal.

 

7. Por fim: O Ricardo sendo Liberal não deveria festejar o fim do Euro?

Não. No Longo Prazo, eu prefiro uma política monetária ditada por Frankfurt do que por Lisboa (sabendo eu que as hipóteses de se adoptar o padrão-ouro são politicamente nulas).

No Curto Prazo, os "custos de ajustamento" à nova situação (sabem, o disparar dos juros, o colapso do crédito e do sector bancário, o disparar do desemprego e a queda na produção nacional por uns bons anos) são altos e, na presente situação, seriam catastróficos.

Devíamos ter ido para o Padrão-Ouro, mas agora que nos apanhamos nesta... O "Path-dependancy" é tramado.

 

O que pode o leitor fazer para travar a queda do Euro?

Poupar mais, para se fazer uma travagem suave com ABS, em vez de ter de se usar o sistema SBA (sistema betão armado) que representaria um fim do crédito repentino.

Usar pouco crédito e sobretudo abster-se de o usar para compras de impulso.

Votar em políticos corajosos que cortem na despesa pública.

E como, diria Hayek, mostrando às pessoas o quão pouco elas sabem sobre os grandes planos que elas imaginam que conseguem desenhar.

 

PS: Se gostam do tema, podem ir à página do "The Economist" e votar em:

Deve a Grécia sair da Zona Euro e regressar ao Dracma?



uma psicose de Ricardo Campelo de Magalhães às 21:59
link directo | psicomentar

9 comentários:
De Anónimo a 4 de Novembro de 2011 às 10:55
Oxalá, Alegre tenha razão: http://economico.sapo.pt/noticias/governo-esta-a-aproveitar-a-crise-para-fazer-uma-revolucao-ideologica_130580.html

É uma boa oportunidade para MUDAR!

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De Ricardo Campelo de Magalhães a 5 de Novembro de 2011 às 00:51
Alegre e razão não combinam na mesma frase. =)

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De Guillaume Tell a 4 de Novembro de 2011 às 16:42
"Por fim: O Ricardo sendo Liberal não deveria festejar o fim do Euro?"

Não precebo muito bem esta equação "liberal = anti Euro". Então o Euro não um projeto maravilhoso de facilitação à livre circulação dos bens, serviços e pessoas, um formidável acelarador de liberdade (pelo menos a nível europeu)? Ou é por o Euro estar mal construído que quem é liberal deve ser contra ele?

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De Guilherme Diaz-Bérrio a 4 de Novembro de 2011 às 17:20
Tecnicamente o Euro até se comporta como se fosse um "Padrão-Ouro" sintético... dai ele até gostar ;)

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De Ricardo Campelo de Magalhães a 5 de Novembro de 2011 às 00:49
Ai...
Ui...
Que essa doeu...

Então alguém, e ainda por cima o "liberal" de Chicago, vem-me dizer que o Euro é um sucedâneo de um regime de Padrão-Ouro?!?
Nota-se. É por isso que a minah barrinha comprada a 640 Euros em 2009 vale hoje o DOBRO!
Em 2 anos perder metade do valor?!?
É isto a "estabilidade" do Euro?
Don't get me started!

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De Ricardo Campelo de Magalhães a 5 de Novembro de 2011 às 00:46
Limito-me a escrever o que muitos me dizem: que eu deveria ser pelo Padrão-Ouro contra toda e qualquer moeda fiduciária.
E a minha resposta é claro: "perfeito, seria o padrão-ouro; mas como esse não é um cenário politicamente realista... viva o Euro!"

Quanto às Liberdades de Circulação, estas derivam da União Económica, não da Unidade Monetária. A prova? Estas já existiam antes da UEM e ainda hoje há países com essas liberdades de circulação fora da Zona Euro. Atenção a esse detalhe.

Mas pronto, talvez seja só a ideia com que fiquei depois da pontuação que deram ao meu artigo no Insurgente, ao artigo que um colega do blog escreveu logo de imediato e a todos os comentários que li no blog e que li na mailing list interna =P

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De Guillaume Tell a 4 de Novembro de 2011 às 21:16
Pois é verdade :)

Mas não sei... "amarrarmos" a um padrão-ouro quando o resto do mundo não o faz... será o ideal? (bom isso são planos do futuro, quando a crise estará terminada)

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De Ricardo Campelo de Magalhães a 5 de Novembro de 2011 às 00:54
Estiver.

Mas obviamente eu defendo essa solução do padrão-ouro.
Se o resto do mundo não quiser fazer o mesmo... azar o deles: nós temos de recompensar os aforradores e desincentivar o crédito. O resto do mundo que faça o que quiser.

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De Guillaume Tell a 5 de Novembro de 2011 às 10:04
Está bem mas a prazo corremos o risco de perder alguma competitividade por causa da valorização da moeda e temos algum risco de deflação, se a contracção do crédito não for largada de vez em quanto.

(Eu sei: se a competividade for sobretudo baseada no valor acresentado esse risco é minimizado, e que se queremos crédito e investimento é preciso primeiro poupar, mas bom... cuidado ainda te chamam de defensor da banca com essas ideias ;))


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