Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011
Tudo o que não se vê, não existe

 

É longa a história da arte homo-erótica. Retratada pelas mais diversas épocas e culturas, dos gregos e seus atletas, heróis e deuses, aos explícitos japoneses, é impossível fazer de conta que a homossexualidade é uma coisa recente.

 

Recentes sim, são os tabus tremendos que a acompanham e a deturpação das histórias e dos mitos da antiguidade.

Há uns tempos li um livro chamado Reis que amaram como Rainhas. Um retrato histórico bastante interessante sobre a homossexualidade ao longo dos tempos. Diz-se que no melhor pano cai a nódoa, e como tal a homossexualidade (que não é de todo uma nódoa mas sim uma característica, tal como é característica minha o meu cabelo dourado-acastanhado) sempre existiu e no seio de todos nós, nos mais variados sectores, nas mais variadas sociedades.

 

Tendo em conta toda esta história da arte homo-erótica e da sua existência ao longo dos tempos, não me afigura portanto, uma explicação para que de modo a  evitar polémica uma companhia de seguros tenha cancelado uma exposição de João Pedro Vale, cuja temática era homossexual. 

 

Para quem já ouviu falar de Provincetown, a exposição não é nada de novo.

Passo a explicar: esta terra nos EUA, é habitada por vários portugueses, celebrando-se com festas N.ª Sr.ª de Fátima, durante as quais podemos entre a animação encontrar várias bandeiras portuguesas suspensas por fios, intervaladas por bandeiras gay.

Naquele lugar, parece que o mundo é todo igual e que tabu é um vocábulo do passado.

 

Mas como não estamos em Provincetown, uma exposição sobre esta é, por cá, um tabu e portanto leva ao seu cancelamento.

Neste país, arte explicitamente erótica não choca ninguém, mas toalhas com stencils a dizer "Legalize Butt Sex" são polémicas.

Enfim, estamos em Portugal, o país no qual directores de semanários ridicularizam os gays e P-town é a Sodoma e Gomorra do séc. XXI.

 

Vá lá que a Vénus de Willendorf já tem alguns aninhos...

 



uma psicose de Essi Silva às 14:01
link directo | psicomentar

4 comentários:
De Rui C Pinto a 25 de Agosto de 2011 às 15:13
Esta história é curiosa, ainda que não me surpreenda. E não pude deixar de te ler com alguma nostalgia quando falas de P-town.

Estive lá em 2004, enquanto fazia visita à família em Boston. Como é costume por lá no Verão, fomos passar o fim-de-semana a P-town para aproveitar a praia. É um lugar peculiar. Oferece à comunidade portuguesa o conforto de uma pequena aldeia piscatória com praias e onde o Sol se põe no mar, a lembrar bem Portugal... E Portugal está bem presente como dizes, a bandeira está hasteada no cais onde atraca o ferry, ao lado da americana e... da bandeira gay, e à porta de praticamente todos as lojas e pensões. Lá encontra-se de tudo, da loiça Vista Alegre, aos sabonetes Confiança, à renda de bilros. O hot spot local é a Portuguese bakery onde se come bom pão centeio e broa de milho e que pelo que me foi dado a conhecer pelo mural à entrada já apareceu em muitos filmes... porno!

Tudo isto me foi apresentado pela minha família que emigrou para os US na década de 70, no fim-de-semana em que se celebrava em P-town a festa da família, a que não faltaram celebrações religiosas na pequena capela e a boa da alvorada com foguetes à portuguesa. E tudo isto confesso que, à época, foi demais para o que eu podia absorver... Era talvez muito novo para conseguir perceber tudo aquilo em tão pouco tempo, ainda que não me tenha sentido desconfortável. Ver as famílias como a minha a passear por ali e a relaxar em férias junto de famílias gay, de duas mulheres ou dois homens a passear com os filhos pela mão foi um pouco twilight zone para mim, à época.

Estamos a anos luz daquela naturalidade e normalidade. Ainda assim, não me choca que o galerista tenha censurado o artista. Incomoda-me um pouco, mas admito que sendo uma galeria privada tenha a legitimidade e a liberdade de ver exposta a arte que lhe aprouver.

|

De Essi Silva a 25 de Agosto de 2011 às 15:19
Vês muito porno tu ;)

Agora a sério, a exposição foi cancelada e não impedida. Ou seja, ela estava planeada, projectada e acabou por algum tempo antes ser cancelada. A polémica foi algo que se foi desenvolvendo.

Muito francamente não acho normal que passes programas eróticos na tv (ex. Sic Radical) facilmente acessíveis a miúdos e graúdos e depois censures por ser gay.

Este tipo de exposições, por ser polémica deve precisamente ser exibida: o princípio da igualdade assim o exige e para alem do mais, é através de marcos destes que os dogmas se evaporam.

|

De Rui C Pinto a 25 de Agosto de 2011 às 15:51
Eu concordo contigo, mas neste caso infelizmente não há outro desfecho senão reprovar a atitude do galerista...


De LS a 31 de Agosto de 2011 às 16:09
Tens razão Essi, essa cidade pescatória, Provincetown muito devota a N. Sra e querida aos portugueses, foi fundada segundo me parece, pelos próprios pescadores açorianos e madeirenses, mas é tambem o pólo gay mais forte da costa Atlantica dos USA e assim por cada festa na cidade as milhares de bandeirinhas de Portugal interlaçam-se com outras tantas do orgulho Gay... Ninguem fica ofendido, nem melindrado e a coexistência das comunidades é forte, tolerante e sólida o que se mostra na riqueza e bem estar dos seus habitantes.


Comentar post

Notícias
Psico-Social

Psico-Destaques
Psicóticos
Arquivo

Leituras
tags
Subscrever feeds
Disclaimer
1- As declarações aqui pres-tadas são da exclusiva respon-sabilidade do respectivo autor.
2 - O Psicolaranja não se responsabiliza pelas declarações de terceiros produzidas neste espaço de debate.
3 - Quaisquer declarações produzidas que constituam ou possam constituir crime de qualquer natureza ou que, por qualquer motivo, possam ser consideradas ofensivas ao bom nome ou integridade de alguém pertencente ou não a este Blog são da exclusiva responsabilida-de de quem as produz, reser-vando-se o Conselho Editorial do Psicolaranja o direito de eliminar o comentário no caso de tais declarações se traduzirem por si só ou por indiciação, na prática de um ilícito criminal ou de outra natureza.