Quarta-feira, 2 de Março de 2011
Wikileaks - Portugal

 

 

Os telegramas do Expresso eram suposto cair como uma bomba na sociedade Portuguesa. Mas isso não aconteceu apesar da grande cobertura que mereceram por parte dos telejornais. Talvez porque os Portugueses estão fartos de escândalos, talvez porque o conteúdo não era propriamente bombástico – pena que os que em Portugal deram grande atenção aos 'escândalos' prévios da wikileaks tenham agora acordado para a realidade de que eles transmitem opiniões e impressões, e não factos. Vamos a esses:

 

1 – Demasiadas altas patentes – Isto é indiscutível. Sendo um país pequeno e em paz, a quantidade de generais e almirantes é de facto demasiada. Consequência inevitável de um Ministério da Defesa gerido à la função pública.


2 – Os oficiais gostam de ter 'brinquedos caros' – Sim e não. O Sr. Embaixador norte-Americano deve estar familiarizado com o provérbio inglês 'Those under glass roofs, shouldn't throw stones'. Pois, é que os EUA quererem passar lições de moral a outros países por gastarem demais em defesa é no mínimo bizarro.


2.1 – Mas será então que os nossos gastos são mal aplicados? Aqui já concordo mais com o embaixador. Um excelente exemplo de aquisições feitas exclusivamente para agradar a chefias, foram os blindados Leopard 2 comprados em segunda mão à Alemanha. Bons tanques de batalha mas inúteis a Portugal. Não só não teriam hipótese de sobrevivência num qualquer eventual conflito na península como não temos nem navios nem aeronaves para os transportar para qualquer outro teatro de guerra – não que o quiséssemos fazer pois intervenções a grande distância exigem unidades altamente móveis e ligeiras, e não tanques de batalha pesados. E igual pertinência teria tido o projecto de trazer helicópteros de ataque para o Exército.


2.2 - Mas não são sempre os EUA que se queixam que os Europeus contribuem pouco para a NATO? Se calhar estavam à espera que os países apenas adquirissem aquilo que fosse complementar às forças armadas Americanas...
Não vi o embaixador a queixar-se de Portugal gastar dinheiro em mobilizações que em nada estão relacionadas com o seu interesse nacional: Que foram F-16 Portugueses fazer para a Lituânia? Ou para a Guerra do Kosovo antes disso? GNR no Iraque? Tropas no Kosovo?
Pois, esses gastos já não são supérfluos...


3 – Fragatas Americanas eram mais baratas – Pois eram, mas como o conhecido blogue de pessoal da marinha diz e bem, também exigiriam tripulações mais numerosas que as holandesas. Depois há sempre o pequeno pormenor de que as aquisições militares também incluem uma componente política e em nome da redundância, Portugal não considera sensato estar dependente exclusivamente de um país para o fornecimento de armamento – sendo que a Força Aérea já depende quase exclusivamente de material Americano e boa parte do exército.


4 – Submarinos eram supérfluos – Interessante como havia duas entidades a desencorajar Portugal de adquirir os submarinos: o Bloco de Esquerda e Washington...
A marinha não podia ter sido mais clara: os submarinos são a principal arma de dissuasão de que Portugal dispõe. O processo de aquisição pode ter sido oneroso e mal conduzido mas a necessidade de Portugal poder operar submarinos quando tem interesses a defender por todo o Atlântico e a maior ZEE da Europa, está para além de qualquer crítica.

 

Finalmente, durante as últimas décadas Portugal tem sempre contado com armamento antiquado, pelo que modernizações e actualizações tecnológicas são tão mais prementes quanto são raras. É pena que tenhamos que gastar tanto dinheiro em submarinos numa altura de crise, é ainda pior que não se tenha feito antes.

A única justificação para Portugal não ter melhores meios é a sua estagnação económica. Gastamos apenas 2% do PIB em Defesa, muito abaixo das nossas necessidades, bem abaixo dos outros países da NATO e apenas acima dos países de leste – os quais não investem na sua maioria em meios navais. Esta é a realidade.

 



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 01:14
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Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010
Maniqueísmo Primitivo

 

Está agora nas salas de cinema de todo o país o filme ‘Fair Game’ – ‘Jogo Limpo’. O filme trata de um escândalo político que ocorreu nos EUA

poucos meses depois da invasão do Iraque, quando um ex-embaixador Americano decide vir a público para divulgar que o Presidente Americano George W. Bush havia mentido num dos muitos ‘factos’ oferecidos para justificar a invasão, nomeadamente no argumentário das armas de destruição massiva – ADMs. O governo Americano, num laivo de partidarismo febril reminiscente de Nixon, decide ao mais alto nível punir o ex-embaixador revelando a identidade secreta da sua mulher Valerie Plame, uma agente NOC – non-official cover – da CIA. Tal como no escândalo Watergate, a Casa Branca faz uso de poderes de Estado para avançar um programa partidário: o da validade do casus belli da operação Iraqi Freedom. Neste caso as consequências foram talvez ainda mais graves já que o dano causado não danificou um partido político mas sim o próprio Estado Americano, ou seja todas as operações em que Valerie Plame alguma vez tinha trabalhado.

 

 

Este é um bom filme (à excepção da legendagem) mas como todos os bons filmes é baseado num livro; neste caso a obra autobiográfica da própria Valerie Plame. Mas não é segredo que esta é uma película ‘independente’, o que em Hollywood equivale a dizer que a narrativa não é politicamente correcta e que contém uma mensagem controversa e de esquerda. Não vou ao extremo de o comparar aos ‘documentários’ de Michael Moore mas é um filme ainda assim muito polémico pois tanto Valerie Plame como Joe Wilson tornaram-se darlings dos jantares humanitários de George Clooney, grandes e públicos apoiantes do Partido Democrata e o escândalo chegou perto de ter indiciado Karl Rove e Dick Cheney num processo legal.

 

Aquilo que este e outros filmes demonstram claramente é um arreigado maniqueísmo primitivo da esquerda. É que até há poucos anos, Hollywood e a esquerda europeia retratavam a CIA como um organismo demoníaco e maquiavélico – curiosamente uma equivalência herdada do ‘Index’ do Vaticano… Em filmes como ‘The Good Shephard’ a secreta Americana persiste como a organização que não olha a meios para fanaticamente combater o perigo vermelho. Hoje em dia no entanto, em filmes como ‘Green Zone’ a CIA é já um paladino da sensatez – atente-se no toque de racionalismo da frase de Plame ‘You don’t know what we can and cannot do’ – que infiltrada pelos burocratas conspirativos de Bush, é desviada para dar cobertura ao embuste.

 

A razão para a inversão ideológica está na apresentação dos problemas em questão. Se até há poucos anos, o serviço de informações Americano era o ventríloquo anónimo por detrás de esquemas maléficos nas obras de autores como Noam Chomsky ou John le Carré (qual dos dois é o autor de ficção fica ao critério de cada um), hoje a CIA tem uma face humana e sobretudo desde Valerie Plame e Joe Wilson, de combate ao poder. Aqui reside a matriz de toda a esquerda: o fraco e o pobre têm inerentemente razão e superioridade moral em relação aqueles no poder. Mesmo que estes últimos sejam eleitos democraticamente ou tenham intenções justas, se forem mais ricos ou poderosos que os seus adversários, perderão a razão.

 

 

Não é aliás preciso ir mais longe do que o recente escândalo da WikiLeaks. Aonde estão os esquerdistas que se indignavam com a actuação da administração Bush, que ao revelar a identidade de Valerie Plame havia traído um agente e trazido a público segredos de Estado? Porque não apelam estas mesmas pessoas ao julgamento por traição e com pena capital de Julian Assange – o mesmo castigo que reservavam para Cheney? Porque viraram tão rapidamente de rumo, todos os apologistas de Obama?

 

 

A resposta é simples, primitiva e maniqueísta: Assange é mais fraco que o governo Americano e tem por conseguinte maior superioridade moral do que este último. David há-de sempre ter mais razão que Golias. Não é por acaso que Israel, outrora defendido pela esquerda, ao atingir o estatuto de potência regional se tornou o alvo do ódio de todas as vertentes da esquerda internacional. Nem é tão pouco incoerente que Al Gore enquanto ex-Vice Presidente e crítico da Administração Bush tenha tido mais visibilidade que teve enquanto todo-poderoso homem de Estado.

 

Esta atitude não é uma doutrina política legítima. Esta atitude tem apenas um e só nome: preconceito.



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 11:41
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