Terça-feira, 29 de Junho de 2010
Reflectindo sobre a Psico-refeição com MFL

O privilégio de poder conversar abertamente com figuras políticas como Manuela Ferreira Leite é a possibilidade de se poder vislumbrar o seu pensamento. Ferreira Leite é uma figura muito lúcida no seu pensamento político, e como poucos em Portugal, a sua integridade ideológica passou quase incólume durante as últimas décadas de evolução política em Portugal.


No centro dos seus ideais está a classe média. Sem uma classe média, a Drª Ferreira Leite não acredita que um estado possa prosperar. A social-democracia para si exige um estado, e um estado forte mas não um estado morbidamente abrangente e centralizador. A experiência dos regimes socialistas demonstra que o aparelho estado é eficaz na diminuição do abismo social, mas nunca para cima. O aparelho estado consegue uniformizar por decreto as diferenças sócio-económicas mas é pouco eficaz na potenciação da sociedade para a prosperidade. Ou seja, o estado é desejável enquanto regulador mas não enquanto produtor. 

 

Para a ex-líder do PSD, a protecção sócio-económica do estado justifica-se apenas para as classes mais desfavorecidas. O estado social deve, para si, ser um estado social mínimo.

 

O período da liderança Ferreirista no PSD caracterizou-se por uma profunda divisão ideológica entre a oposição e o governo. Esta divisão não era apenas política mas também pessoal pois o perfil de José Sócrates e o de Ferreira Leite não poderiam ser mais diferentes. As medidas anti-crise e as medidas pós-crise que os governos Sócrates tomaram contaram sempre com a oposição acérrima de Manuela Ferreira Leite porque elas se destinavam a beneficiar camadas da população dependentes do governo e a taxar as camadas da população que sendo mais independentes, perdiam a capacidade de suportar qualquer retoma económica. Este modelo perdedor persiste hoje: o governo expande a abrangência fiscal para fazer face ao endividamento que foi liderado pelo sector público nas últimas décadas – responsabilidade primária dos governos PS.

 

A dicotomia dos governos gastadores e dos governos de poupança é velha mas o pecado das últimas décadas socialistas foi terem-se demitido da responsabilidade de fazer reformas que implicassem a contenção do sector-estado.

Na III República enquanto porta-estandarte da esquerda e dos ‘trabalhadores’ – justamente ou não – e enquanto parte do arco da governabilidade e detentor de sentido de estado, o PS tem tido a missão de fazer as reformas difíceis, as reformas defendidas ...pelo PSD. O PSD tem ao longo do tempo sido esvaziado da sua legitimidade de representante dos ‘trabalhadores’ e dos ‘pobres’ pela esquerda Portuguesa pelo que quando uma reforma particularmente difícil se apresenta, a norma e a tradição – em quase todos os países aonde o espectro político pende para a esquerda – ditam que o PSD pressione a partir da oposição e que um governo PS as leva a cabo, por ser insuspeito de defender o ‘patronato’.

 

A maior vergonha não é que o governo populista de Sócrates não tenha tido a coragem ou a responsabilidade de as fazer. A maior vergonha é que o PS centralizado, estagnado e podre não tenha deixado de apoiar incondicionalmente os governos Sócrates, sabendo ainda melhor que o PSD, da irresponsabilidade com que o país tem sido governado.

 

Manuela Ferreira Leite foi há poucos dias comparada a Francisco Sá Carneiro pela sua integridade e visão … e justamente!



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 21:34
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Quarta-feira, 3 de Março de 2010
Zoran Djindjic – Um Sá Carneiro dos Balcãs? (II)

 

 

Há  ainda um outro aspecto da figura de Djindjic que é pertinente explorar, sobretudo tendo em conta a direcção em que a maré política em Portugal nos leva.

           

O livro “Hajka” de Kazimir, consiste numa análise à cobertura mediática de que Djindjić foi alvo nos seus anos de governação. Algo claramente verificado foi que Djindjic nunca tentou ingerir-se nas redacções dos jornais ou da imprensa no geral.

     

Sob este aspecto, Djindjic terá sido incauto pois ele acreditava em não processar jornalistas e o seu método para lidar com imprensa negativa era simplesmente ignorá-la. Infelizmente, a influência decisiva dos editores de informação sobre os jornalistas não é fenómeno exclusivo de Portugal nem tão pouco a influência das máquinas partidárias/políticos sobre os editores.

     

Também as agências de marketing são importantes na vida política Sérvia, recorrendo os novos partidos a elas para efeitos de imagem e para assessoria nas campanhas. A distinção entre jornalistas e agentes de relações públicas esvanece-se progressivamente.

     

Djindjic não foi sempre hábil com os media, ele teve que aprender a produzir soundbites e a falar inglês por exemplo mas talvez por razões de integridade, ele recusou-se a entrar na pura política espectáculo e a na competição mediática.

     

De certo modo, foi a moderação da sociedade global e a vitória do consenso de Washington que ditou o fim das lutas ideológicas e dos “líderes combatentes”. Não será então estranho que os novos líderes, por falta de legitimidade ideológica, recorram a campanhas negativas e à política da imagem para conseguirem mobilizar eleitorados apáticos.

      

O que é estranho na sociedade Portuguesa, é que a população em geral penalize aqueles que se recusam a entrar no campo da política da personalidade, e que são cada vez mais raros. Todos têm culpa, desde os que insistem em votar em branco ou em não votar, àqueles que escolhem o seu candidato pela beleza física ou charme pessoal.

      

A “campanha negra” proletarizou-se. Já não é  exclusiva de conspirações ou campanhas mediáticas ocasionais, é  hoje em dia complemento da tese Clintoniana da “campanha permanente”, tornou-se uma ferramenta indispensável do combate político.

      

Mas o seu uso diz mais do público que dos políticos. A classe política vende um produto e são os cidadãos que ditam a deontologia deste sistema produtivo. Se os políticos entram na arena da competição de personalidades, tal deve-se à exigência de uma população civicamente preparada para a mediocridade. Ao contrário da esquerda no entanto, a direita e os seus representantes detém a coragem para responsabilizar o indivíduo. Talvez por isso nos últimos quinze anos, os Portugueses tenham optado pelo caminho fácil da desresponsabilização estatizante, abandonando os seus fardos em lares de burocracia aonde permanecerão até ao fim, até à prescrição.



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 08:56
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Terça-feira, 2 de Março de 2010
Zoran Djindjic – Um Sá Carneiro dos Balcãs? (I)

 

 

Assisti há alguns dias à apresentação de um livro (“Hajka” de Velimir Ćurgus Kazimir) sobre este estadista Sérvio e decidi escrever sobre ele pois julgo que o seu percurso tem algumas lições valiosas para o PSD. 

 

Um nome estranho para os Portugueses, Djindjic foi PM da Sérvia/Jugoslávia e foi um dos principais responsáveis pela queda de Slobodan Milošević, defendendo reformas democráticas e a resistência pacífica ao regime socialista autoritário.

 

 

Depois da queda de Milošević, ele ascendeu rapidamente por entre as fileiras do então caótico panorama político em Belgrado até chegar a PM e primeiro líder de governo da era democrática. Djindjic era um intelectual mas também um visionário dinâmico que promoveu grandes programas dirigidos à juventude e que facilmente seduziu um eleitorado que clamava por novas caras e ideias.

 

 

É difícil imaginar que outra personalidade melhor pudesse ter simbolizado a transição democrática neste país, mas a dimensão icónica de Zoran Djindjic não teve tempo de ascender aos níveis de Mandela ou de Wałęsa, devido à sua morte prematura por assassinato em 2003.

 

 

A queda de Djindjic no entanto, não pode ser apercebida simplisticamentecomoa derrota dos idealistas depois da revolução – epifenómeno reflectido em Kerensky, Gandhi ou Benazir Bhutto. Djindjic era ele próprio um orador de brio, que sabia encantar o público.Comoqualquer personalidade revolucionária, a sua coragem perante o perigo, para além de inspirar as massas, também revelava algum idealismo, mas não foi a sua ingenuidade que motivou o seu assassinato político e sim aquilo que apenas podemos designar por amadorismo.

           

Kazimir, o autor do livro, observa que Djindjic enfrentou muitos problemas – muitos, os mesmos que os nossos líderes Portugueses – nomeadamente os interesses instalados, o crime organizado e as corporações. Não é surpresa pois que uma grande campanha negativa tenha sido facilmente levada a cabo pelos seus rivais políticos.

 

 

Em Djindjic existe o seu quê de amadorismo. Certamente que o idealismo e a sua credulidade tiveram consequências mas Djindjic era um político, tinha contactos e tinha ambições. Entre as muitas críticas que lhe foram feitas, o pragmatismo figurava entre as principais, isto é que ele não escolhia o caminho mais fácil mas também não optava pelo caminho mais difícil e intransigente, sabia entrar em compromissos políticos. O seu fim trágico fica a dever-se à sua incapacidade de exercer autoridade sobre um aparelho de estado oriundo de quatro décadas de regime autoritário.

 

Os responsáveis pelo seu assassinato eram membros de uma unidade de operações especiais dos serviços secretos Jugoslavos (DB) – ex-polícia política – os quais, depois do processo de extradição de Slobodan Milošević, não conseguiram adaptar as suas lealdades ao novo regime. A ciência política distingue claramente entre Estado e regime mas a diferença não é tão clara para o comum dos cidadãos e não o é sobretudo nos Balcãs aonde o processo de desintegração da Jugoslávia iria desagregar uma federação socialista multi-étnica para tentar dar lugar a estados-nação.

     

Não, Djindjic não era um ingénuo, ele sabia os riscos que corria mas a sua inabilidade em conseguir a sincera dedicação dos quadros do antigo regime demonstra que apesar de tudo, havia custos associados às novas políticas e novos protagonistas.

     

Deixo a questão aos leitores sobre se é possível estabelecer paralelos entre figurascomoFrancisco Sá Carneiro, Zoran Djindjic ou mesmo Abraham Lincoln. Será  o sacrifício dos agentes da mudança de paradigma político, inevitável e mero preço estrutural a pagar pelos benefícios de ditas profundas transformações? 



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 10:36
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