Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013
Irresponsabilidade Humanitarista

Em 2011, quando a Primavera Árabe ganhava ímpeto, os humanitaristas ocidentais lançavam achas para a fogueira: Amnistia Internacional ou Human Rights Watch (HRW) incitavam apoio aos revolucionários e reclamavam mais apoio da parte dos governos ocidentais e mundiais, para com a onda revolucionária no mundo Árabe.

 

 

Mas hoje, na apresentação do seu relatório anual, a HRW - surpresa das surpresas - queixa-se que afinal as 'democracias' erguidas nas ruínas dos prévios regimes aliados do Ocidente, não respeitam os mais básicos dos direitos humanos. Vejam só, se ao menos alguém tivesse previsto tal facto infeliz...

 

Como já aqui reportei há outros indicadores que também se degradam.

 

Mais uma vez se vê o resultado de amadores ideologicamente cegos, interferirem com políticas de estado cuja prerrogativa não pertencem à 'rua'.

 

Mas a irresponsabilidade destas associações não se resume à interferência com a política externa e os interesses de estados ocidentais, é que no fundo aquilo que estas ONGs verdadeiramente querem é que o mundo Árabe - e o resto do planeta - adoptem os valores ocidentais à força mesmo se depois estes se revelam impossíveis de adaptar. Este euro-centrismo fanático prejudica portanto as relações entre estados mas também prejudica as sociedades para onde eles são exportados.

 

Haja vergonha.



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 19:06
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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013
International Relations 101 para o JP Meireles em 3 segundos...

... com uma abordagem sarcástica:



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 16:37
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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013
Para memória futura...

... dêem-me ouvidos, pelo menos quando eu falo de política externa.

 

(este post é mais uma vez dedicado a certos ex-Psicóticos)

 

 

Nem um ano se passou desde a intervenção da NATO na Líbia (que Portugal apoiou...) e os aviões Europeus estão de volta aos céus africanos. Há umas semanas atrás, em vésperas de Natal, falava-se em Washington sobre a possibilidade de bombardear a Líbia de novo, desta vez para dar cabo dos Islamistas que o Ocidente havia armado durante a guerra civil Líbia. Para quem não esteve atento, os mesmos que assassinaram o embaixador Americano na Líbia e destruíram o consulado em Benghazi.

 

Esta semana não é a Líbia que se bombardeia mas sim o Mali, aonde Tuaregues e a corja Salafista fundaram um estado Islâmico vindos da Líbia em caos. Estes últimos impuseram a xaria e levaram a cabo um vandalismo bárbaro de locais e monumentos históricos classificados pela UNESCO como património da humanidade.

 

Já se fala que se forem expulsos do Mali, os Islamistas poderão procurar desestabilizar outros países como o Chade, a Mauritânia ou a própria Nigéria - potência regional da África ocidental.

 

Isto para não falar de consequências tais como o aumento no fluxo de imigração ilegal Africana - que Qadhafi mantinha em cheque - o aumento do valor dos seguros para os investimentos ocidentais na Líbia e no norte de África e a inerente falta de segurança dos mesmos.

 

E então? Viva a democracia? Valeu bem a pena? Vejam lá se querem repetir a dose na Síria....



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 22:07
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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012
Nobel da Demagogia
A cerimónia de atribuição do Nobel da Paz à União Europeia em Oslo foi o espelho da classe política Europeia e o reflexo não foi bonito.
Para um prémio atribuído a uma organização internacional, por mais soberania partilhada que a constitua, foi absolutamente ridículo ver todos os chefes de governo presentes para captar o prestígio por associação que a UE estava a receber. 

Dito isto, ao nível institucional o M.O. foi o mesmo de modo que ninguém sai incólume na fotografia de grupo ...e de grupo. Van Rompuy tornou aquilo que se queria como uma cerimónia solene num evento hilariante ao invocar Kennedy com o seu "Ich bin ein Europäer". Solidariedade com um ideal questionável tudo menos consensual não é propriamente o equivalente da Berlim da Guerra Fria...

O aproveitamento político foi óbvio e barato mas o mesmo também se deve dizer infelizmente, de quem faltou pois David Cameron não esteve presente por razões igualmente populistas.
É uma Europa de politiquices e não - como devia ser - uma de estadistas.
Passemos então ao mérito do prémio em si. Aquilo que justificou a atribuição do prémio à UE foram projectos Europeus como o EuropeAid ou a Iniciativa Europeia para a Democracia e Direitos Humanos. No entanto, ao contrário da tradição de promover estadistas que encetavam negociações de paz, estes projectos iniciados por lógicas politicamente correctas de despesa orçamental e fruto do consenso possível - virtude desse mesmo politicamente correcto - entre os estados-membro, também dão azo a um prémio menos merecido; não só a UE nunca foi capaz de pôr travão a uma guerra mas quando tentou - Bósnia, Kosovo - falhou pois as forças internacionais e os projectos de construção de estado continuam ad eternum presentes nos Balcãs - para não mencionar o que o conflito actual no Congo diz de todo o investimento Europeu e da ONU nos esforços de paz.
Assim, premeia-se quanto muito as boas intenções, mas não os resultados. Mas porque a atribuição do Nobel é também política, há um aspecto preocupante que convém salientar: nem sequer na Europa se concorda na definição de democracia e direitos humanos, e é prioridade da UE expandir tais definições opacas ao resto do mundo? A que preço? E se uma outra civilização quisesse promover os seus ideais na Europa? Aceitamo-lo-íamos? 
E que dizer do inevitável problema que a Europa levou séculos a chegar a estes ideais num canto do mundo muito peculiar? É sustentável promover tais valores excepcionais no resto do mundo?

Quem somos nós para dizer aos outros como viver?


uma psicose de Miguel Nunes Silva às 17:19
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Terça-feira, 31 de Julho de 2012
De vitória em vitória, até à derrota...

É típico estes dias vermos muito encorajamento à derrota de Bashar al-Assad na Síria. Vale a pena recordar a esses 'peritos' que Israel - provavelmente a nação mais paranóica à face da Terra - não segue a linha da Europa ou de Washington nesse encorajamento. Os Israelitas sabem bem que os montes Golã foram a fronteira mais estável que tiveram nas últimas décadas e sabem também que Assad é, ao contrário dos ayatollahs de Teerão, um estadista racional. NÓS sabemos que Israel foi um dos poucos aliados Americanos que teve a coragem de alertar contra a invasão do Iraque.

 

Neste artigo de Richard Haass os factos são mais claramente expostos:

 

"(...) os apelos aos Estados Unidos e a outros países, que têm interesse e influência na região, em defenderem a democracia e os direitos humanos colidiram com as preocupações relacionadas com o queos interesses da segurança nacional irão sofrer, caso os regimes autoritários pró-ocidentais sejam expulsos."

 

"(...) armar a oposição não está isento de desvantagens. Correm o risco de alimentar uma guerra civil e de encorajar os regimes leais a firmarem-se. Além disso, as armas fornecidas para lutar contra o regime serão utilizadas nos tumultos, para combaterem uns contra os outros, se e quando o regime for removido, tornando o rescaldo na Síria muito mais violento."


Anseio pelo dia em que as nossas elites decidam fazer dos interesses do Estado e dos Portugueses uma prioridade maior que os seus precoceitos ideológicos.

Os nossos aliados...

Não se pode dizer que a Síria seja um regime aliado do ocidente que valha a pena salvar, mas tal como no caso da Líbia, pergunto-me se a mísera Síria vale a pena como centro das atenções do ocidente quando parece ser bem mais vital para a Rússia e China, quando o Irão é a principal preocupação do ocidente e quando todos nós estamos em dificuldades económicas.
E estes são os nossos aliados... 



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 17:43
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
Group Think

 

 

O termo em título refere-se a uma tendência identificada por sociólogos que consiste na uniformização de ideias no contexto de uma dinâmica de grupo. 

Esta tendência é hoje em dia perfeitamente identificável nos ditos media mainstream pelo que é sempre arriscadíssimo confiar na narrativa preponderante pois ela não é necessariamente factual. Os media tendem a seguir narrativas mediáticas que suscitam interesse à sua audiência. Precisamente porque os media são inerentemente sensacionalistas, a sua narrativa deve sempre ser vista com algum distanciamento.

 

Hoje em dia vemos bem as consequências deste fenómeno no evento da Primavera Árabe. Para traçar uma analogia com que todos nos podemos identificar, durante os anos 70 era previsão estabelecida tanto na Europa como nos EUA que Portugal se tornaria comunista depois da revolução dos cravos. Washington chegou a planear isolar Portugal de forma semelhante ao embargo a Cuba para mais uma vez apresentar um exemplo negativo a não seguir por outros aliados.

As previsões falharam e no fim Portugal esteve perto mas não chegou a tornar-se comunista. De facto as eleições provaram depressa que o apoio eleitoral do PCP era bastante limitado e tirando os governos de salvação nacional, o PCP nunca sequer chegou a governar.

 

Podemos observar um tal paralelo hoje no Egipto e noutros países Árabes: a revolução era democrática e liberal, mas afinal parece que os secularistas são uma minoria e que não só os militares vão preservar uma porção do poder mas os islamistas serão aqueles catapultados para o poder e procederão assim à revogação de grande parte das reformas liberais de Hosni e Gamal Mubarak.


Há quem diga que as revoluções provam o falhanço das políticas de parceria com regimes autoritários mas nesse caso as contra-revoluções provam diametralmente o seu sucesso, e dado que tanto nas revoluções coloridas do leste da Europa como agora durante a Primavera Árabe existem importantes movimentos de resistência à mudança, então os ocidentais até têm sido relativamente bem-sucedidos. 

O politicamente correcto impede-nos de observar simples dilemas: ditaduras liberais Vs. democracias integristas.

 

Está na hora de abandonar a nossa mentalidade de rebanho e abrirmos os olhos.



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 09:34
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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012
A tal da 'Diplomacia Económica'...

 

Esta quarta-feira foi a vez de Paulo Portas se revelar enquanto ministro do novo governo. Depois de Assunção Cristas foi a vez de o MNE vir a público tentar melhorar a imagem do governo com mais uma reforma inovadora e um Ministro dinâmico jovem e energético - aonde é que já vimos isto? Ah pois...

Pelo menos foi essa a intenção ao se criar uma oportunidade mediática com Portas e o corpo diplomático que obteve ampla difusão - em directo em vários canais de televisão por cabo.

 

Enquanto internacionalista residente, este Psicótico vê a responsabilidade de comentar o espectáculo como implícita. Mais importante ainda, vejo esta análise como a mim consignada porque durante a era Socrática fiz questão de comentar a actuação do governo em política externa e tenho agora que ser consequente com o meu percurso.

 

Infelizmente, por muito que eu gostasse de poder afirmar que uma nova era se apresenta na condução da política externa do nosso país, as minhas conclusões são na sua maioria negativas. No entanto, por muito que me custe observar os mesmos erros de sempre a serem cometidos (e custa, acreditem), posso pelo menos orgulhar-me de ser consequente com opiniões que tenho expressado ao longo dos anos.

 

O Ministro Portas fez um discurso longo em prol da diplomacia económica mas enganem-se aqueles que pretendam elogiar uma nova abordagem à diplomacia pois não só não é a diplomacia económica algo de novo - o termo já nos é transmitido bem gasto, pelos sectores económicos Americano e asiático - mas não é tão pouco algo de novo em Portugal. Os governos Sócrates sempre pugnaram pela abordagem económica à política externa e só quem não recorda os périplos de Sócrates e Amado pelo mundo Árabe, pela América Latina e pela China é que poderia sequer sonhar em atribuir a Portas e ao XIX Governo Constitucional o mérito do conceito.

 

Pois bem, nenhuma novidade mas se o conceito é bom aonde está motivo para crítica? O conceito é desde logo problemático porque eu comento de acordo com uma perspectiva política e o termo é técnico. Há uma grande diferença entre diplomacia e política externa: a primeira é táctica e técnica, a segunda é (ou deveria ser) estratégica e política. Mas deixando a semântica de lado, o problema que se põe de imediato é saber qual a estratégia por detrás desta política e a minha análise é negativa sobretudo devido ao facto de o discurso do governo não ter deixado antever qualquer estratégia - muito pelo contrário, parece não querer dar importância à necessidade de uma.

A intenção é simples: fazer negócio o mais possível. Mas o Estado Português não é uma empresa, é uma entidade política. Não sou contra abrir oportunidades ao empreendedorismo e facilitá-lo mas essa é a função do Ministério da Economia. Os diplomatas Portugueses podem ajudar mas não são treinados (nem devem) para ser gestores.

Passo a explicar: que aconteceria se empresas Chinesas e Americanas estivessem ambas interessadas na aquisição da EDP? Aparentemente, de acordo com o paradigma aestratégico do governo, o critério seria 'first come, first served'. Ora isto é ausência de visão. Isto é imediatismo irresponsável e desprezo para com o interesse nacional - o qual é intrinsecamente de longo prazo. Isto é diplomacia de manga de vento pois significa governar ao sabor do vento.

 

Um dos pontos que foi corajosa e orgulhosamente avançado foi o de que a avaliação das missões diplomáticas de Portugal seria agora regido pelo critério das relações comerciais. Uma vez mais isto revela a total ausência de visão ou planeamento estratégico pois vejamos o exemplo do massacre de Santa Cruz: se fosse hoje, Portugal não se bateria pela independência de Timor-leste pois o volume de negócios com a Indonésia é e será sempre superior ao das trocas comerciais com o pequeno Timor.

 

Tudo isto resulta claro da falta de um Conceito Estratégico Nacional. Claro que quando se decide ser escravo da narrativa politicamente correcta de fim-de-História demo-liberal, percebe-se que haja alguma ...'hesitação' em definir ameaças, imperativos estratégicos e critérios de política externa; é chato fazer escolhas pois escolhas implicam decisões, decisões implicam riscos e tomar riscos exige coragem. É tão mais confortável andar ao sabor da maré e esperar pelo melhor...

Mas a outra principal razão não é estrutural e sim de liderança: como avisei ao longo dos últimos anos, o percurso de alguns dos líderes deste governo nunca me inspirou esperança em ver grandes estadistas dali emergir. Detesto dizê-lo mas ...'eu avisei'.

 

Confesso que durante algum tempo mantive alguma esperança de que este governo pudesse ser diferente quando ao apresentar os seus planos de governo decidiu pôr o vector da Lusofonia à frente de o do Atlantismo e de o da Europa. Gostaria que quem quer que seja que tenha sido pro-activo o suficiente para argumentar a favor de uma hierarquia estratégica diferente para a nossa política externa, fosse agora coerentemente mantido à frente de uma reforma do MNE. Gostaria...



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 16:04
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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011
4o lugar!! - Portugal era o 4o maior exportador de armamento para a Líbia

Em resposta a uma pergunta de um deputado da Assembleia Nacional, o PM Francês François Fillon anunciou que a França era apenas o terceiro maior fornecedor de armamento à Líbia antes da guerra, um lugar acima de Portugal, que arrecadou 11 milhões de euros no ano prévio à intervenção aliada.

 

 

Repito: Declaramo-nos hostis a um bom cliente e apoiamos agora os rebeldes porque ...



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 09:21
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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011
Líbia: Portugal na carneirada

Quando a guerra civil se instalou, Portugal prestou-se a ser indigitado mediador na crise e num primeiro momento a sua neutralidade era séria mas à medida que o conflicto se pronlongou, a independência de Portugal foi-se esfumando: em Março já presidia ao Comité de Sanções à Líbia das Nações Unidas (que no momento em que Tripoli dominava a maior parte do país era claramente parcial contra o regime) e poucas semanas depois, aquilo que era uma operação ad hoc por parte de países que apenas também eram membros da NATO, acabou envolvendo toda a Aliança Atlântica – alguém ouviu um pio da parte das Necessidades?

A semana passada Lisboa foi mais longe e transferiu o seu reconhecimento diplomático de Tripoli para Benghazi.

 

Eu compreendo que tenhamos aliados com pouca sensatez mas não posso compreender que nós próprios nos demos ao luxo de conduzir a nossa diplomacia ao sabor do vento.

Portugal tem interesses na Líbia! Se o regime de Tripoli sobreviver, os países beneficiados serão aqueles que apoiaram o regime ou se mostraram neutrais. Portugal está a tomar partido num disputa que não só não está resolvida mas na qual tem também muito a perder.

 

Que ganhamos nós em apoiar os rebeldes? Sim, a narrativa dos rebeldes é a da democracia liberal mas mesmo que eles pratiquem no futuro aquilo que pregam hoje, isso não é desculpa para arriscar tudo aquilo que tem sido construído com Tripoli até agora, em nome de ideais que a nós em nada irão beneficiar.

 

A verdade por detrás da posição de Portugal é infelizmente que o governo tem cedido recorrentemente à pressão de “aliados” que têm outros interesses no conflicto...



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 12:59
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Segunda-feira, 4 de Julho de 2011
"Unidade na Diversidade"

 

 

 

 

Daqui

 



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 12:43
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Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011
E Tudo o Vento Levou

 

 

 

Se há algo que esta crise no mundo Árabe prova, é que decididamente muito de aquilo que os media apelidam de ‘comunidade internacional’ é na verdade ‘comunidade ocidental’. A cobertura tem sido lamentável com uma clara parcialidade por parte dos jornalistas ocidentais e mesmo dos Árabes, que oriundos das classes altas e médias altas, educados em universidades ocidentais – ou com currículos ocidentais – tomam claramente o partido dos manifestantes.

 

 

Mas não nos enganemos, se as revoluções são muito populares no mundo árabe, isso deve-se não só às elites mas também aos preconceitos da dita ‘rua Árabe’. A rua Árabe é anti-americana, terceiro-mundista em política externa e mesmo antisemita. A irem em frente estas revoluções trarão regimes muito ambíguos em relação ao ocidente se não mesmo antagonistas.

 

No caso do Egipto por exemplo, as elites capitalistas que defendem a revolução fazem-no por interesse próprio pois querem que a economia Egípcia seja menos aberta. As empresas nacionais que o regime favoreceu e cultivou durante muito tempo cresceram ao ponto em que o investimento directo estrangeiro se tornou uma ameaça para o corporativismo doméstico.

Igualmente importante: as elites ‘liberais’ que neste momento apelam ao derrube dos regimes são as mesmas que se aliam aos Europeus de esquerda no anti-americanismo anti-globalização. São os descendentes dos Nasseritas que impulsionaram o Movimento dos Não-Alinhados ou a Liga Árabe – instituições que toleraram os maiores massacres da Guerra Fria mas sobretudo os maiores ataques aos interesses e valores do Ocidente. Afinal, não é a Al-Jazeera anti-Israel e anti-EUA?

 

Quem olhar para o mapa político da Europa observará que os governos de esquerda se acumulam no sul da Europa (Portugal, Espanha, Grécia). Isto não é aleatório já que o espectro político pende mais para a esquerda nos países mediterrânicos. Pessoalmente já pude observar o horror nos olhos dos estrangeiros a quem conto que comunistas e trotskistas dominam 1/5 do parlamento. Se no sul da Europa isto é tão patente, que dizer do sul do Mediterrâneo?

Evidentemente cada caso é um caso: se a revolução resultasse na Líbia, provavelmente o novo regime seria muito mais favorável ao ocidente, a crise na Jordânia não estará tão relacionada com as elites capitalistas.

 

Mas aquilo que é crucial compreender é que os regimes que resultarão destas revoluções serão muito menos favoráveis ao ocidente. Tal como as independências Árabes do pós-guerra nacionalizaram o petróleo e levaram o mundo Árabe para uma maior proximidade com o bloco soviético, também agora os Iranianos esfregam as mãos por verem os regimes que mantinham uma estabilidade pró Ocidental caírem. Não quer dizer que amanhã haja regimes islâmicos favoráveis a Teerão no poder. Mas significa sim que serão mais compreensíveis para com a República Islâmica. É muito claro que com os ditadores irá também o paradigma estratégico que nos favorecia até agora.

 

As alternativas estão a oriente. A Rússia tenta há uma década influenciar o abastecimento energético da Europa. Fê-lo a leste – mérito de Putin – e as companhias Russas persistem em continuar a mesma política no norte de África (ver Gazprom na Argélia por exemplo).

Ora é espectável que as elites terceiro-mundistas, isolacionistas e anti-Americanas prossigam as boas relações comerciais com os interesses Americanos e Europeus? É óbvio que não. E que dizer dos contractos das indústrias de defesa ou da preferência financeira das elites? Será de esperar que estas elites privilegiem ou tratem justamente os países que apoiaram os regimes prévios? A alternativa em matéria de armamento continua a ser a Ásia. O mesmo se pode dizer da moeda de referência.

 

A Turquia é um bom exemplo – até porque a sua população é mais educada e menos vulnerável ao populismo. Mesmo a Turquia, com um governo islâmico acabou por cair numa ambiguidade ocidentofóbica. É membro da NATO mas mantém exercícios militares com a China. Quer entrar para a UE mas oferece apoio à Líbia e ao Irão. Permite o projecto Europeu de pipeline Nabucco mas também o South-Stream Russo – em concorrência um com o outro.

 

Quando será que o Ocidente compreenderá que num mundo cada vez mais competitivo e multipolar não se pode dar ao luxo de perder aliados e que a democracia não traz compatibilidade estratégica mas sim frequentemente o contrário? Quando nos deixaremos do ridículo de servirmos de claque a eventos que beneficiarão todos menos nós?

 

Fechem o guarda-chuva - não dêem cobertura aos nossos rivais - ou deixem-se levar pelo temporal…



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 15:51
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Domingo, 6 de Fevereiro de 2011
Egipto: a Apologia do Silêncio

(Traduzido daqui)

 

por Patrick Porter

 

Política externa trata de valores? de fazer aquilo que é bom? Devemos simplesmente pôr de lado as nossas cautelas e apoiar a revolução democrática do Egito? Andrew Rawnsley pensa assim. E ele despreza os "realistas" nesta questão.

Esta não é a primeira vez esta semana que idealistas liberais expressam satisfação pelos acontecimentos no Norte de África, de modo a procurar a validação de que, mesmo depois dos ‘triunfos’ da sua política externa no Iraque ou com a expansão da NATO - directamente atribuíveis às suas ideias - eles realmente é que têm razão .

 

Mas eu não tenho a certeza de que política externa é a arte de se ser bom. Trata-se sim de ser prudente. Se política externa é simplesmente celebrar a nossa própria moralidade, espalhando-a pelo mundo fora, qualquer um poderia fazê-lo.

Historicamente, e agora, impõe-se um equilíbrio entre as nossas crenças e os nossos interesses. Eles muitas vezes divergem. Chama-se dilema: a tensão entre dois princípios divergentes. É de tirar o fôlego que esta distinção ainda não seja conhecida.

 

Mais concretamente: se a solidariedade com os movimentos democráticos for o nosso objectivo primordial, teríamos logicamente de apoiar a independência de Taiwan e do Tibete, abraçando o movimento democrático chinês e, automaticamente, destruindo a nossa relação com Pequim.

Se o princípio da democracia é o nosso lema, como justificar então a nossa aliança com o Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, o qual absorveu a maior parte das vítimas da Wehrmacht?

O nosso petróleo barato e seguro (que presumivelmente Andrew Rawnsley usa no seu carro) vem como resultado de relações estreitas com alguns regimes no Golfo, decididamente pouco éticos.

 

Andrew Rawnsley diz:

Estou a ser generoso ao dizer que Barack Obama, David Cameron, Nicolas Sarkozy, e o resto dos soi-disant "líderes do mundo livre" têm muitas vezes dificuldades para articular uma resposta coerente com princípios e as revoltas populares que se espalharam a partir de Tunis para o Cairo.

 

Têm e por boas razões: Abertamente abraçar uma oposição democrática noutro estado pode ter consequências muito más. Em primeiro lugar, como vimos no Irão, décadas de apoio aberto e claro aos dissidentes iranianos tem sido politicamente tóxico para aquelas pessoas valentes, pois fere-os com a acusação de que eles são uma quinta-coluna Americana. Um dos motivos pelos quais os dissidentes no Egipto conseguem legitimidade é o facto de não serem conotados como os "nossos rapazes".

Em segundo lugar, temos grandes interesses na região que seria moralmente irresponsável ignorar, como a continuação do acordo entre o Egipto e Israel, o chokepoint Suez, e um medo da anarquia muitas vezes na esteira de novas democracias. Não é frívolo parar para pensar, neste momento histórico.

Em terceiro lugar, o governo de Barack Obama nos bastidores tem actuado muito responsavelmente, usando a influência que tem para conter qualquer violenta retaliação ou represália, e tentar incentivar as reformas.

 

... o MNE  britânico deve ter uma opinião sobre se o governo democrático é sempre preferível à ditadura.

 

... e depois de pensar sobre como e que dizer, o que serão as consequências e se podemos aplicar este princípio de forma consistente. Chama-se ‘sentido de estado’ e está muito longe dos debates das salas de aula no Liceu. É suposto o MNE pronunciar-se também sobre a necessidade de democracia e direitos humanos na China, e os nossos interesses que vão para as urtigas?

 

O presidente Bush II há alguns anos atrás, insistiu em eleições livres e numa democracia na Palestina e presenteou-nos com um governo violento e anti-semita – o Hamas. A Austrália insistiu num referendo sobre a independência de Timor Leste, o que resultou em 1400 mortos, centenas de milhares de deslocados, a destruição das infra-estruturas do país, e uma orgia de violência na televisão e mutilações pelas milícias.

 

Foi só quando Hosni Mubarak começou a recuar que os líderes ocidentais começaram a sugerir que deveria haver uma transição para a democracia.

 

Demonstrando que o movimento democrático Egípcio é muito eficaz sem o nosso apoio retórico. Porque é que tudo tem a ver connosco?

 

Esta escola "realista" da política externa sempre foi um pouco absurda com a sua alegação de que as ditaduras oferecem estabilidade, um argumento especialmente difícil de sustentar numa região tão dilacerada por conflitos como é o Oriente Médio.

 

Na verdade, os realistas mais astutos estão bem cientes dos problemas que os ditadores podem trazer, mas também conseguem discernir que as alternativas podem ser o caos. Incrivel sobretudo depois do Iraque: alguns idealistas liberais precisam de ser relembrados de que a alternativa à ditadura pode ser uma anarquia muito mais brutal. Eu prefiro viver na Arábia Saudita do que na Somália. O melhor realismo no entanto, vê o contexto e defende uma nova grande estratégia que nos livre da região no longo prazo, justamente para que não estejamos implicados nessas crises e forçados a fazer escolhas difíceis sobre elas.

 

Concedendo isso aos "realistas", devemos então fazer-lhes uma pergunta: Estão eles a dizer que os Árabes não são permitidos aspirar à democracia, temendo que a revolução possa resvalar (como se fosse o mesmo país, mesma cultura e tempo) do mesmo modo que o Irão em 1979?

 

Não, nós (ou pelo menos eu) não dizemos isso. A democracia liberal é uma grande coisa. Estamos apenas cépticos sobre a nossa capacidade de projectar noutras sociedades a nossa via, nos nossos prazos. Levar liberdade ao Egipto cabe aos egípcios. Se houver a possibilidade de uma primavera árabe, o mais sensato é não intervirmos.

Qualquer pessoa com algum sentido de história sabe que o caminho para a democracia liberal pode ser instável e sangrento. A Grã-Bretanha levou séculos para progredir desde os reis tirano como Henry VIII, até ao governo parlamentar representativo. Os americanos mataram-se uns aos outros numa guerra civil que causou mais mortos entre eles do que qualquer outro conflito. O Reino Unido e os EUA ainda têm que alcançar um estado de perfeição democrática. Mas também sabemos algo sobre a democracia, algo que foi bem expresso por Winston Churchill: é a pior forma de governo - com excepção de todos os outros.

 

De facto a Grã-Bretanha e os Estados Unidos tiveram as suas guerras civis, o que acabou por produzir um governo constitucional. No entanto, de acordo com a mundivisão de Rawnsley a comunidade internacional não deve pactuar com atrozes guerras civis, mas sim intervir com a sua benevolência muscular e salvar os inocentes. Nesta perspectiva, à América teria sido negada a sua União, e à Grã-Bretanha o seu sistema parlamentar de governo; se os estados não devem ser autorizados a ter as suas guerras civis então devem ser abortadas as evoluções políticas que daí resultam.


Democracia é o melhor regime na construção de sociedades estáveis, prósperas, duradouras e tolerantes a longo prazo. Nunca houve um conflito armado entre duas democracias verdadeiramente estabelecidas.

 

Sim, houve. Na Guerra Civil dos EUA mencionada antes, entre a União democrática e a Confederação. No nosso tempo, Israel democrático travou uma guerra em Gaza, contra o Hamas democraticamente eleito. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha e seus aliados declararam guerra à Finlândia democrática devido à sua invasão do nosso aliado autocrático  União Soviética. Na Antiguidade, Atenas democrática não hesitou em combater  outras democracias durante a guerra do Peloponeso. E ainda há a guerra Anglo-Boer.

Assim, "nunca" parece-se muito mais com "algo frequentemente". Os EUA e a Grã-Bretanha democráticos no século postbellum XIX chegaram muito perto, e ter um tipo de regime semelhante não os impediu de fazer planos de guerra um contra o outro.


É tempo de os líderes do "mundo livre" desatarem o nó na sua garganta e afirmarem-no com clareza cristalina.

 

Como alternativa, talvez seja tempo de os espectadores idealistas abandonarem o seu conceito amador de diplomacia, as suas teorias a-históricas de "paz democrática", e seu moralismo adolescente, e reconhecer que por vezes é mais sensato ficar calado.



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 17:10
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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011
Médio Oriente: Democracia e um castelo de cartas

 

 

 

 

Desde as revoltas na Tunisia e no Egipto que andamos a discutir acantonados em dois cantos: os "Pró-Democracia" porque é o melhor e resolve instantaneamente todos os problemas do Médio Oriente como uma panaceia milagrosa e os "Pró-realismo" porque se mantém o status quo, porque os árabes são incapazes de ser democráticos (a "excepção árabe").

 

Honestamente, esta discussão está me a cansar porque, na minha opinião, estão a escapar a ambos os lados alguns pontos.

 

Somos etnocentricos. É normal: qualquer povo acha que a sua cultura é melhor que a do vizinho. É natural, é uma consequência do sentimento de pertença a um grupo. E no nosso etnocentrismo europeu já nos esquecemos do tempo que demorou a tornar a democracia estavel na Europa.

 

A democracia, enquanto regime, existem desde 500 A.C. Agora pensem bem quanto tempo demorou até que os regimes da Europa Ocidental deixassem de oscilar entre Democracias frágeis, Regimes Populistas e Ditaduras? Até aos anos 70 a Peninsula Ibérica e a Europa de Leste não viviam em Democracia. O Muro de Berlim cai em 1989... D.C! Quase 2500 anos para termos uma Europa Democraticamente estável e, mesmo assim, há sempre dúvidas em relação a dois ou três países.

 

A lição é que a democracia não se faz da noite para o dia. Não estou a dizer que outras regiões vão demorar 2500 anos a chegar lá. Fizemos muitos erros de percurso. Estou a constatar um facto que nos esquecemos e tomamos por adquiridos: há requisitos institucionais, culturais e económicas para a implantação duma democracia.

 

Uma classe média forte e maioritária, instituições naturalmente fortes e ancoras (e pró-democráticas) e uma cultura propicia a isso. Na Europa, a cultura Judaico-Cristã é propicia à democracia. Na consolidação da Democracia, um grande factor foi que o Vaticano deixou de fazer contra-corrente à democracia. Uma instituição ancora deu assim um dos amparos necessários. E tivemos de esperar até ao pós-2ª Guerra Mundial para termos classes médias dominantes.

 

Democracia é um regime curioso. É o regime mais suicida que existe, extremamente vulnerável a populismos e manipulações por dentro do sistema se não correctamente ancorado. É frágil.

 

Existem estas condições no mundo árabe? Pode a democracia prosperar, por exemplo no Egipto? Se calhar é melhor não embandeirar já em arco, porque não é liquido que assim o seja. Para mim, é um bom sinal que a revolução seja promovida pelos próprios egípcios. Democracias não se fazem por "decreto" (Bushistas, é favor olhar para o Iraque, sff). Mas, um pouco de calma e sangue frio na "panaceia milagrosa": Um país com 40% de pobreza, fortes instituições religiosas que, naquela religião, não são pró-democráticas. Acreditam na Sharia, não na auto-determinação e comando de um povo e grupos cuja a principal aspiração é o nacionalismo árabe, dão bases muito frágeis. A revolução Iraniana também começou bem: expulsar o Sha, reduzir a Pobreza de um povo face a uma elite. Já vimos como acabou esse filme: substituíram um ditador por um "profeta de Deus".

 

A segunda fonte de etnocentrismo nesta discussão é o facto de, aqui na Europa, e no Ocidente em geral, já não temos o habito de interferir com os nossos vizinhos. Sim, a Real Politik e esferas de influência existem, mas depois de duas Guerras Mundiais aprendemos que há coisas que é melhor não fazer. Ninguém contesta, por exemplo, as fronteiras actuais (não, não estou a referir-me a Olivença ;)). Portugal e Espanha não têm despiques navais sobre a soberania das ilhas desertas (embora tenhamos despiques nos livros de geografia). Não nos passa pela cabeça.

 

E, logo, achamos que no Médio Oriente há-de ser igual. O que não é. O Médio Oriente está mais proximo da Europa entre a Paz de Westefalia e o Congresso de Viena. Há fronteiras, mas nada é escrito em Pedra. Há Direito mas, vale tudo. Todos contra todos a lutar pela Hegemonia. E neste clima, a paz faz-se à base de equilíbrios regionais. É um processo evolutivo: não é amanhã que eles vão acordar e pensar "Bem, não preciso de tentar ser hegemónico no meu cantinho". Vai demorar, vai exigir conversações, progresso gradual, transições e sim, eventualmente Democracia e auto determinação do Povo. Nenhum regime é estável com mais de um quarto do povo a passar fome. Tal como exigiu na Europa. Foram precisas duas Guerras Mundiais fratricidas para a França e a Alemanha se entenderem, por exemplo.

 

O Médio Oriente é um castelo de cartas! O Irão luta, como sempre lutou em toda a sua história, pela Hegemonia da Região, e hoje fa-lo com motivações militares e religiosas. Normalmente a forma de o conter é deter o Iraque. Bem, Bush tratou de lhes dar o Iraque numa bandeja de prata. Siria e Libano são fantoches. Um continuo até ao Mediterrâneo. Do outro lado, Arábia Saudita, os pequenos reinos árabes na Peninsula, e a Jordânia a contrabalançar. Ninguém quer um Irão Hegemónico. Israel é, e sempre o foi historicamente, o ponto contacto e confronto, aquele pedaço de terra chave. O Egipto faz de arbrito e fiel da Balança. E é estratégico: Canal do Suez! A Turquia passa de pró-Ocidental para tentar ser o "Líder dos Arabes", o que implica que quanto mais caótico o Egipto estiver melhor. E nenhum destes senhores têm qualquer problema em interferir, directa e indirectamente, nos assuntos do vizinho. Seja porque meios for: e para alguém a passar fome, a religião é uma arma quase letal.

 

Gostava de ver regimes democráticos naquela região. Gosto de ver os povos a quererem mais. Mas temo que as bases não sejam fortes o suficiente para que os regimes prosperem e não termos regimes pseudo-democráticos. Como a Russia, Venezuela, Balcãs! E, se a Venezuela é chata, imaginem várias "Venezuelas Árabes" com 70 por cento de todas as reservas de Petróleo e Gás Natural e uma das maiores vias portuárias do mundo (em especial, para a Europa), com entrada para o Mediterrâneo, motivada militar e religiosamente. Algum realismo para temperar os ânimos exige-se.

 

Estamos a falar de coisas muito sérias aqui com consequências potencialmente graves. Que o Médio Oriente vai mudar, vai. Agora, para onde, ninguém pode saber, e os riscos são elevados.

 



uma psicose de Guilherme Diaz-Bérrio às 11:29
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Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011
A Tragédia de Gamal Mubarak

 

O herdeiro aparente ao trono do Faraó, parece ter sido posto de lado definitivamente. Esta é uma perda importante para o Egipto pois Gamal era a mais forte esperança para a modernização do Egipto, desde Sadat.

 

Esta modernização começou com o golpe dos ‘oficiais livres’ contra o rei Faruk, liderado por Gamal Nasser. Nos anos 50 no entanto, a realidade era outra: ainda que os Europeus perdessem o Egipto, os Americanos podiam tomar o seu lugar, Israel não era ainda uma potência e tanto a Turquia como o Irão eram aliados do ocidente. Mas Nasser acabou por alinhar com a URSS, a única potência que apoiava a sua reivindicação ao canal do Suez. Ainda que o canal tivesse sido construído por Ingleses e Franceses, a sua administração fosse internacional, e a sua utilização fosse livre, Nasser fez do Suez uma bandeira nacional e viria a apropriar-se dele coercivamente – seguindo as pisadas aliás de muitos outros países do 3º mundo, como por exemplo os fundadores da OPEP. Nasser foi um líder carismático mas não eficiente. A nacionalização do Suez valeu-lhe uma guerra e uma humilhação. O seu belicismo para com Israel valeu-lhe uma segunda dose, para não falar da intervenção no Yemen. Economicamente, o seu historial também não é digno de apreço ao ter deixado a economia em pior estado do que a tinha encontrado.

 

O sucessor Anwar Sadat foi uma mudança diametral para o Egipto: fez-se a paz com Israel, o Egipto garantiu o Sinai e o Suez, e a economia prosperou. Infelizmente para Sadat, os grandes reformadores são frequentemente vítimas dos ‘velhos do Restelo’ e no seu caso, a sua coragem valer-lhe-ia a morte por assassinato. Apesar da maior estabilidade e crescimento económico que Sadat trouxe, o seu governo sofria de impopularidade devido à paz com Israel – algo que a sociedade Egípcia antisemita e anti-ocidental rejeitava – e à situação económica. Apesar da prosperidade, a sociedade Egípcia permaneceu pobre e cresceu a desigualdade. Mas esta evolução não pode ser atribuída a Sadat e ao seu governo pois todos os países mediterrânicos sofrem da mesma tendência para o abismo social. Se no sul da Europa a protecção económica da Europa do norte tem ajudado a minorar o problema, o médio oriente não tem tanta sorte e todas as sociedades Árabes padecem da desigualdade social. Certamente que esta desigualdade é incrementada pela corrupção e pelo centralismo mas ela é ainda assim endémica.

 

Mubarak continuou as políticas de Sadat e conseguiu manter a influência geopolítica do Egipto assim como a estabilidade e o crescimento económico. É importante compreender que nenhum governo é capaz de lidar com um crescimento demográfico explosivo como aquele que tem vivido o Egipto – e que é prova da sociedade próspera que é a república árabe. Este crescimento assim como a crise financeira, contribuíram em muito para o aumento do desemprego. Juntando a isto o desgaste temporal do regime (sublinho que é o regime militar e não Mubarak, pois durante a ditadura de Nasser, as multidões nas ruas aclamavam este último; não exigiam a sua saída) e a inspiração da revolução Jasmim era uma questão de tempo.

 

A acontecer, a queda do regime de Mubarak será uma tragédia para o Egipto, uma sociedade em muitos aspectos livre, tolerante e próspera. Durante os anos 90 e 00, o filho do ditador, Gamal Mubarak e a sua equipa conseguiram reformar a administração e a política económica do Egipto e levaram o país aos mais altos índices de crescimento económico da região, um feito notável se atendermos à máquina burocrática do Cairo e ao peso do regime.

 

É preciso manter em perspectiva todos os factos. El-Baradei não é um homem carismático e mal se faz ouvir quando se dirige à multidão manifestante. Ele seria uma má aposta para liderar um executivo de coligação e manter fora da ribalta os extremistas da Irmandade Muçulmana – assumidamente anti-ocidental, à excepção da sua paixão pela democracia, que sabe lhe garantirá o governo em caso de eleições livres. Ainda que toda a sociedade esteja cansada do regime, muitos dos que se manifestam no Cairo e em Alexandria são as elites urbanas com qualificações e não a plebe mais empobrecida, pois essa sentiu bem o efeito das reformas do governo de Mubarak – quanto mais não seja na prole mais numerosa que se dá ao luxo de sustentar.

 

Como seria um Egipto sem regime militar e com governos liberais e islamitas no governo? Seria um país instável, ambíguo e em dificuldades económicas. Certamente que tanto liberais como islamitas tentariam exacerbar programas sociais para agradar às camadas mais pobres – se por mais nenhuma razão para legitimar o novo regime e condenar o predecessor. Sem a supervisão presidencialista no entanto, isso rapidamente levaria o Egipto ao endividamento. Se é certo que a corrupção diminuiria, também é verdade que o aparelho estado cresceria a olhos vistos. Uma justiça mais garantista e menos arbitrária traria mais equidade legal mas também uma maior lentidão e menos atracção de investimento directo estrangeiro. Sem a confiança de Washington, o Egipto veria também a sua influência regional diminuir. A presença da Irmandade Muçulmana et al no governo suscitaria a desconfiança de regimes outrora aliados e se o Cairo se quisesse distanciar dos EUA teria apenas a Turquia, o Irão e a Rússia para onde se virar. Todos cobrariam caro o apoio, não teriam tanta capacidade de investimento ou de apoio militar e todos significariam uma ‘partilha’ do poder geopolítico do Egipto no médio oriente.

 

Isto não partindo da possibilidade de que a Irmandade torne o Egipto numa nova Líbia…

 

Gamal Mubarak representava uma possibilidade pequena de que o Egipto pudesse continuar a prosperar e a liberalizar. Talvez até maior respeito pelos direitos humanos e uma contribuição para a resolução definitiva do processo de paz. Esta revolução, a surtir efeito, trará apenas mais governo e mais irresponsabilidade no executivo.

 

Teremos que assistir a mais um ciclo Nasser antes que os governantes populistas do Cairo se apercebam que as políticas do anterior regime eram afinal sensatas…



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 17:57
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