Sexta-feira, 3 de Janeiro de 2014
O Saco de Gatos


Aparte o facciosismo caciquista intra-partidário, o PSD como plataforma macro-agregadora de correntes de pensamento de direita, padece também de rivalidades ideológicas. Tentei neste quadro demonstrá-las partindo do único critério da dimensão do estado em meras três esferas de política governamental: economia e finanças, dirigismo de valores, e política externa.

Identifiquei assim 7 grandes correntes ideológicas dentro da direita Portuguesa:



  • Social-Democratas (Social-Dems) - Escola de pensamento antiga centrista mas de tendência esquerdista. Apenas vigorou no PSD num período mais inicial da fundação do partido tendo depois dado lugar sobretudo a Conservadores e Social-Cristãos. Pautam-se pelo dirigismo estatal na economia e pela solidariedade internacionalista.

  • Conservadores (Cons) - A corrente conservadora é a génese agregadora da direita Portuguesa. Tradicionalistas nos costumes mas conservadores fiscais.

  • Liberais (Libs) - Agora no poder, eles são sobretudo a geração dos 30s e 40s, mas ainda baby-boomers. Regem-se por uma atitude permissiva tanto em costumes como na economia. Favorecem o sector privado e o cosmopolitismo libertino da vida moderna nos valores. Por outro lado, são altamente voluntaristas em política externa, defendendo com unhas e dentes o institucionalismo liberal.

  • Social-Cristãos - Definem-se pela sua ortodoxia nos valores. São aqueles que ainda se batem pela penalização do aborto e pela definição stricto sensu do 'casamento' mas são também grandes proponentes da intervenção social do estado.

  • Libertários - Os anarco-capitalistas fazem jus ao nome. Isolacionistas na esfera internacional e minarquistas na economia. 'Estado para que te quero'.

  • Neoconservadores (neocons) - Corrente de Liberais desiludidos, olham com saudosismo para os anos 50 e querem um certo regresso a esse tempo. Querem famílias estruturadas e o Ocidente como fonte de inspiração libertadora para o resto do mundo.

  • Utilitário-Conservadores (Ucons) - Tendência pragmatista e tecnocrática. O interesse nacional é o ponto de partida para a sua perspectiva política. Socialmente liberais, cépticos de internacionalismos e adeptos da austeridade e responsabilidade financeira. Rejeitam tudo o que seja inspirado em utopias e qualquer forma de engenharia social. Definem o interesse público objectiva e empiricamente.



(Deixei de lado os populistas demagógicos porque esses pululam pela tabela fora, consoante a mudança de direcção da manda de vento da opinião pública).



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 15:40
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Domingo, 6 de Janeiro de 2013
Pensando a Arte do Compromisso

'Os políticos são todos iguais'

'Os políticos são todos corruptos'

 

Todos nós já ouvimos estes 'aforismos'. São típicos de sociedades aonde o civismo é pobre. Toda a sociedade Portuguesa é corrupta, mas só os políticos são alvos de generalizações. Para além do mediatismo, vale a pena perguntar 'Porquê'. Aqui sim reside o busílis.

 

Não sendo a pessoa mais qualificada para falar sobre estas questões neste blogue, acrescentarei a minha pitada:

 

As razões para se entrar na política variam mas seja qual for a razão principal, cedo se compreende que há oportunidades na política. Perante isto cada indivíduo tem que tomar uma decisão sobre quão longe está disposto a ir, quanto está disposto a sacrificar por essas oportunidades (que podem ir desde cargos à simples fama). Precisamente porque a política é a arte do compromisso, o equilíbrio entre autenticidade e pragmatismo é complexo.

 

As jotas têm má fama porque introduzem esta realidade muito mais cedo para os seus membros. Assim, ao contrário do resto da sociedade que progride na vida profissional antes de obter oportunidades na política, muitos jotas há que enveredam pelo caminho do compromisso para obter favor profissional.

Ser-se jota no entanto, acarreta consequências tanto boas como más. A vida política introduz um nível de maturidade e experiência que poucos em Portugal têm. Improvisar e trabalhar sob pressão ajudam muito a construir carácter e claro que quem leva uma vida política desenvolve conhecimentos sobre, e contactos no, 'sistema' em Portugal. Claro que também desencaminha muitos outros para percursos de fraude e oportunismo - e aqui infelizmente, o factor da tenra idade de muitos jotas, ajuda a que o sistema das jotas perpetue as suas próprias perversões, pois aquilo que deveria ser uma formação, transforma-se em muitos casos numa educação.

 

Assim, embora os políticos no geral enfrentem o dilema pragmatismo/autenticidade e façam boas e más opções, os políticos oriundos das jotas têm por vezes a propensão a optarem mais frequentemente pelo pragmatismo. 

 

Numa sociedade católica infestada por tabus, politicamente correctos e hipocrisias, uma certa dose de pragmatismo é sempre bem vinda e quem não sabe entrar em compromisso não sabe governar pois qualquer governante tem que compreender que as suas opiniões não podem ser absolutas. Dito isto, o pragmatismo actua por vezes como uma droga pois muitos há que entram no circulo vicioso e se deixam perder.

 

Talvez o mais óbvio dilema pragmatismo/autenticidade, e aquele mais frequentemente invocado dentro das próprias jotas, é o da escolha entre cargo e ideologia. 

 

Todas as crianças crescem a reclamar o que é seu: seja comida ou brinquedos. Assim, quando ingressamos na escola a reacção natural a divergências de opinião é a teima. A escola, as jotas e a política no geral força-nos a considerar a opinião dos outros. A política é especialmente importante porque ao contrário da escola e da arte, aonde o individualismo ainda pode e deve imperar, a política só traz sucesso quando este sucesso é colectivo. Os cargos e a fama são fruto exclusivo da acção de grupos - através de eleições - e como tal, o conformismo à dinâmica de grupo é essencial para o sucesso.

 

O problema surge mais tarde quando há que lidar com as consequências do compromisso pragmático, pois se a autenticidade se perder por completo, a única opção aberta é a de entrar num compromisso com um grupo diferente e voltar a reclamar alguma autenticidade e valor. Mas a táctica do compromisso é um caminho potencialmente infinito de lealdades opacas.

 

Por conseguinte, uma boa maneira de verificar a respeitabilidade de um político seria testar a sua coerência política porém, para se defenderem os políticos desenvolveram uma contra-medida: o centrismo. Quanto mais ideologicamente radical maior o risco de se encontrar em contradição quando o compromisso político é feito. Logo a maior parte dos políticos não arrisca e prefere apresentar-se publicamente com posições diplomáticas sobre dilemas polémicos.

 

Por conseguinte, se quiserem saber quem é menos fiável a nível político, olhem para a facção mais moderada do espectro político de um partido. Porque são por inerência fracos em fiabilidade ideológica, são frequentemente também os mais populistas do partido: aqueles mais dados a adoptar posições morais e a movimentarem-se em numerosos círculos políticos e profissionais. Posições morais porque o que é moral, é politicamente correcto, e portanto socialmente consensual; sendo também mais passível de discursos inflamatórios sobre nulidades. Numerosos círculos porque a mais-valia do compromisso se verifica tanto mais, quanto maior número de círculos entre os quais agir como intermediário - o 'contacto' tornando-se mais importante que a causa original.

 

Concluindo podemos dizer que os políticos se posicionam sempre algures no espectro-trilema seguinte. Têm que se preocupar com a sua ideologia sem serem fanáticos, com notoriedade sem serem populistas, com lucro e sucesso pessoal sem se tornarem corruptos.

 

 

 

 

 

                                                                                      



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 00:55
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