Sexta-feira, 15 de Julho de 2011
"A questão Alemã"

 

 

Muito se tem dito sobre a obrigação moral da Alemanha pagar a crise, e respectivos bailouts, sem protestar. Recentemente, decidiu juntar-se mais um argumento: a Alemanha benificiou com o Euro, foram os juros baixos que pagaram a reunificação, esses mesmos juros que colocaram os paises periféricos na falência, logo eles devem pagar a crise. In a nutshell, a culpa dos nossos males é deles, e da reunificação deles.

 

A minha primeira reacção, instintiva, quando leio este tipo de argumentos oscila entre clamar "barbaridade" e mandar as pessoas que professam tais barbaridades ler um livro ou dois de história. A segunda reacção é a que se segue: se as pessoas não vão aos livros de História, e se ficam por demagogia germanofóbica, venho eu trazer o livro às pessoas.

 

Antes de mais, temos de enderessar duas questões. A primeira é da que, todos lucraram com o Euro. Sem excepção. Se se pode dizer que o Euro potenciou exportações alemãs para o resto da Europa, também é verdade que o resto da Europa, em especial o Club Med (Portugal, Espanha, Grécia, neste caso) ganharam um enorme almoço gratis. Com o Euro deixaram de se financiar a 15 por ano ano, para se financiarem a uma confortavel taxa "germanica" de 3 a 4 por cento. E isto apenas foi possível porque, quando o euro foi criado, todos os financiadores julgaram que haveria uma garantia implicita alemã. Se estes meninos não pagassem a conta, a Mãe Germanica pagaria. Isto para dizer que o argumento, "eles têm de salvar o Euro porque foram os mais benificiados com ele" está gasto e errado. Eles já exportavam. Quem ganhou um Boom (que foi gerido de forma desastrosa por estes países) foi o Club Med.

 

A segunda questão a enderessar é a de que a Alemanha é, sempre foi, e continuará a ser no horizonte previsivel, o maior contribuinte liquido para a UE. Já aqui escrevi sobre isso: nos últimos 60 anos, fruto da "divída moral" por causa de Segunda Guerra Mundial, os Alemães não só pagaram a União como raramente protestaram (ao contrário dos segundos contribuintes liquidos, o Reino Unido, que tanto protestou que ganhou o "Cheque Inglês", durante o tempo da Senhora Tatcher, ou a França que é o maior recepiente liquido da Politica Agricola Comum). 

 

Agora o argumento que considero profundamente errado (retirado da caixa de comentários do Psico): 

saiu-lhes do pêlo? claro que sim. às custas da manutenção artificial de uma taxa de juro baixa que foi a desgraça para os pigs como se viu. para beneficiar um sofreram outros com o seu mau comportamento.

 

(...)

 

Mas lembro-me que a Alemanha queria impor, e bem, instituições sólidas europeias mas as suas estavam a falhar e teve que sobreviver financiando o leste com dívida pública a taxas mais baixas neste momento em que já não captava investimento.

 

(...)

 

Ora mesmo em cima do acontecimento a Alemanha através da célebre ditadura do marco, manteve taxas altas que de facto atraiam capital muito necessário para a dura reunificação.

 

Vamos lá aqui esclarecer uma coisa: a reunificação alemã custou, liquido, 1.3 mil milhões de euros ao Estado Alemão. Não estou a falar de "capital", ou "investimento", ou de "taxas de juro". Estou a falar aos cofres do Estado Alemão, ao contribuinte alemão, seja sob a forma de impostos, contribuições para a segurança social ou dívida pública. Estamos a falar de 40 por cento da sua economia, num esforço que durou de 1990 a 2005. 

 

Inicialmente o plano era financiar tudo com Dívida Pública Alemã, mas em 1992 o Bundensbank (o Banco Central Alemão, e o mais ortodoxo e duro do mundo desenvolvido) começou a protestar. É preciso ter em conta o contexto: Weimar deixou uma Memória Institucional muito dura nas autoridades monetárias alemãs. Eles são "inflacionófobicos". O Bundensbank fez duas exigências, que o Governo Federal seguiu: financiar a reunificação com impostos, e que ia aumentar as taxas de juro para conter a inflação. Apenas metade do valor exigido pela renificação veio pela emissão de dívida pública. O remanescente veio de uma politica orçamental extremamente austera: aumentos de impostos, redução da idade da reforma, aumento das contribuições, redução da despesa. O povo alemão mordeu a bala fiscal para se reunificar.

 

O papel do Marco Alemão não é o que se pinta. O Marco Alemão não era forma de financiamento. O Marco Alemão era a moeda mais estavel e menos inflacionária da OCDE. Facto do qual não só o Bundensbank se orgulhava, como se recusava a abdicar um milimetro que fosse. Quando foi criado, em 1979, o European Rate Mechanism (ERM), ele foi criado com um objectivo: preparar uma potêncial moeda única, reduzir a inflação e aumentar a estabilidade de alguns países (estamos em pleno choque petrolifero). O ERM foi na pratica ligar as moedas ao Marco, não para financiar a reunificação (estão a reparar nas datas?), mas sim porque o Marco era a moeda mais estavel e com a taxa de inflação mais baixa. 

 

A Alemanha não sobe as taxas de juro para atrair Capital (eles são ricos em Capital e tinha divisas e já na altura um excedente da Balança Comercial), mas sim para colocar um travão à inflação fruto da reunificação. (O Reino Unido sofre, no processo, porque em vez de reavaliar a moeda, no ERM, decide insistir na paridade, em 1992, até que quebrou sob o ataque de Soros. Um erro comum do Reino Unido: moedas fortes de mais.)

 

Não só isso, como, o Marco é sacrificado para garantir a reunificação. Para os mais desmemoreados, França e o Reino Únido são contra a reunificação. É segredo aberto que Miterrand tenta bloquear, e pede a Gorbatchev que a vete. Kohl só garante o apoio quando se compremete a uma União Monetária, sacrificando o DM.

 

Argumentar que foi depois o Euro, e a política de baixos juros do BCE, que ajudou a Alemanha é não ter em atenção o ciclo de taxas de juro. As taxas, há entrada do Euro, eram de 2%. E de 1999 a 2001 elas estão a subir. É apenas em 2001 que elas descem. Não para ajudar a Alemanha mas sim porque dois aviões bateram em duas torres e o mundo entrou em panico, aka, o 11 de Setembro. Depois, de 2003 a 2008, o BCE está, constantemente a subir taxas, de 1% para 3.25%. Se isto é uma política de descer os juros para ajudar a Alemanha, peço desculpa a expressão, mas eu "vou ali e já venho". 

 

O problema do Euro foi que não se contava com um pequeno pormenor: que os países do Sul actuassem como crianças. Quem se lembra do na altura governador do Banco de Portugal - Vitor Constancio - a dizer que "a dívida não era problema, Portugal era agora comparavel à Florida, endividem-se à vontade" (citação livre)? Aqui reside a responsabilidade, não na mitica (e não existente) política de juros baixos para financiar a reunificação alemã.

 

E aqui reside o problema intelectual dos alemães. Para eles o problema não é pagar ou ajudar. A última sondagem do Der Spiegel mostra mesmo isso. O problema deles, que lhes causa alguma perplexidade, é por um lado estarem a ver que estão a atirar dinheiro para um buraco negro, e em segundo lugar verem que os povos do Sul não estão dispostos a sacrificios para sairem da crise, e preferem culpar a Alemanha. Um povo que passou 15 anos a comer balas de impostos, moderação salarial, trabalhar mais, menos segurança social e de recessões sucessivas para se reunificar não entende esta postura.

 

Eu confesso que também não entendo, e partilho do pensamento Alemão.

 

Não é legitimo, politica ou financeiramente, continuar a lançar argumentos como este e outros (apelando à memória da Segunda Guerra Mundial) para forçar os Alemães a pagar. Não há discussão produtiva, ou negociação, que vá a bom porto assim.  



uma psicose de Guilherme Diaz-Bérrio às 12:22
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12 comentários:
De jfd a 15 de Julho de 2011 às 12:38
Não é legitimo, politica ou financeiramente, continuar a lançar argumentos como este e outros (apelando à memória da Segunda Guerra Mundial) para forçar os Alemães a pagar. Não há discussão produtiva, ou negociação, que vá a bom porto assim.

Da mesma forma que não é legítimo o argumentário dos preguiçosos que gastaram sem pensar (apelando à memória dos tempos dos juros baixos) e que agora têm de sofrer as consequências como se tratassem de países que vivem isolados de uma União Económica e Política! Não há discussão produtiva, ou negociação, que vá a bom porto assim.

Estamos perfeitamente de acordo!

Para breve análise mais profunda. Obrigado pela posta.


De Carlos a 15 de Julho de 2011 às 13:26
Concordo.

Já agora:

http://www.nytimes.com/2011/07/15/business/global/europe-makes-rating-agencies-look-good.html?pagewanted=2&_r=2&ref=global


De jfd a 15 de Julho de 2011 às 14:25
Carlos,

O senhor Norris tem um ponto que é válido e muito americano, mas toma em conta que o texto dele relaciona a revolta contra as grande 3 com a Grécia e menciona Portugal uma vez. Ora não foi bem isso o que se passou.
Mas pronto tomato, tomatau... não é? :P


De jfd a 15 de Julho de 2011 às 14:55
Ora lido o post atentamente é interessante ver o mesmo acontecimento contado de várias formas. A tua, a do keine, a minha, etc.

Vamos tipo Portas;

a) custou apenas metade da reunificação em financiamento? de que ano a que ano? é que esse custo está muito distante de 2001. Lembras-te do EMS que se chama pelos corredores da altura de GMS (german monetary system )? porque era? E as taxas de juro começaram a descer como nunca em 99...

b) mantenho o que já tinha dito antes: Cortando muito na história que não sei e juntando crises cambiais de 92 à confusão, temos os resto dos países sedentos de taxas mais baixas e sente-se uma tendência natural para a convergência.
Monetaristas sentem que apenas pla convergência a uma moeda única per se (ECU) a coisa iria ao eixo, enquanto que outros, Alemanha incluída , viam uma convergência macroeconómica como sendo precendente ao ECU por forma a funcionar tudo como deve de ser (e aqui me incluo e peço agora o que não foi feito antes!!!). Ora estas pretensões da Alemanha não foram tidas em conta exactamente devido ao momento que se vivia devido à reunificação e aos custos que estavam a ter para o resto dos países da Europa devido ao tal GMS . Isto tudo depois mete Áreas monetárias óptimas e mais umas coisas que já não me lembro. Mas lembro-me que a Alemanha queria impor, e bem, instituições sólidas europeias mas as suas estavam a falhar e teve que sobreviver financiando o leste com dívida pública a taxas mais baixas neste momento em que já não captava investimento.
Ora é a isto que me refiro.

c) Curiosidade: qual o comentário ao artigo já sugerido por um dos nossos comentaristas? http://www.spiegel.de/international/germany/0,1518,769703,00.html

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De Guilherme Diaz-Bérrio a 15 de Julho de 2011 às 15:07
a) Está escrito no Post. Lê.

b) O que tu te referes não me sentido algum. Não percebo sequer onde queres chegar com o teu argumento, o sequer qual é o teu argumento aqui.

Mas lembro-me que a Alemanha queria impor, e bem, instituições sólidas europeias mas as suas estavam a falhar e teve que sobreviver financiando o leste com dívida pública a taxas mais baixas neste momento em que já não captava investimento.

Não é verdade. E está explicado no post o porquê, o como e o quando não é verdade.

resto dos países da Europa devido ao tal GMS

Por esta ordem de ideias, o custo para o resto da Europa era uma política monetária mais rigida, com taxas mais altas. O teu argumento foi, em posts passados, que a GMS induziu a malta em dívida por juros mais baixos para financiar a reunificação.

Já desmontei esta. De novo, não entendo onde queres chegar, ou o argumento.

Btw, o Euro não é uma zona monetária optima. Isso é reconhecido por todos.

c) Ainda não li. Quando tiver tempo, leio e comento.

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De Guilherme Diaz-Bérrio a 15 de Julho de 2011 às 15:14
E antes que atires com o argumento de que, para ser uma zona monetária optima tens de ter união fiscal (não necessariamente, e já escrevi sobre a opção, e uniões monetárias verticais e horizontais), o Euro não é uma zona monetária optima, e dificilmente o será no futuro próximo, por imobilidade do factor trabalho:

Nos EUA, os desempregados do estado da Florida, vão para a Califórnia procurar trabalho (exemplo absurdo). Ou seja, mobilidade laboral inter-estados ajuda a absorver os choques monetários. Tal não ocorre na Europa. Há migrações, mas não ao nível fluído dos EUA.

(As políticas de "casa própria" também não ajudam a esta mobilada, seja inter-estados ou intra-estados).

Logo o Euro não é uma ZMO.

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De jfd a 15 de Julho de 2011 às 15:53
Claro que não é! Isso era a pretensão dos monetaristas! Que pensavam que pelo ECU atingiriam isso... somente pelo ECU. :P
Mas pronto amanha explico-me melhor!

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De IT a 15 de Julho de 2011 às 18:05
Deutshland über alles!
Ups é melhor meter o meu 'suevo' na mala, antes que alguém pense que sou 'prima' da tia Ângela. Esclareço que sou descendente de Hermerik (lol) o 1º rei de Portugal (séc. V dC)

Guilherme: o post está perfeito e «quem não estiver de acordo leva» -a modos como disse o Coelhone...


De ... a 18 de Julho de 2011 às 15:37
O blame game não leva ninguém a lado nenhum. A narrativa moralista dos acontecimentos e consequentes explosões histriónicas, não ajudam ninguém. A cacofonia que se ouve em Bruxelas, nos Conselhos Europeus e ECOFIN, e as posteriores fugas/declarações à imprensa só agravam os problemas ao invés de os resolver. É de resolução de problemas que temos/devemos falar...
A Alemanha ganhou com a moeda única (se bem que foi preciso um anúncio, nos jornais alemães, pago pelo pelos patrões da indústria, para relembrar isso na praça pública...) tal como os restantes membros da Zona Euro. Temos uma relação comercial intra-europeia desiquilibrada, mais do que na relação UE-RM, havendo quem chame à Alemanha a China da Europa, mas isso é algo que não quero abordar, hoje é 2a feira e não quero começar a semana com qualificativos. Houve também uma descida dos juros pelo BCE, no rescaldo da crise asiática, que beneficiou a Alemanha e os restantes. No entanto, quem não se lembra da Alemanha ter eptáfio colocado, nos primeiros anos do milénio, dada por acabada com taxas de desemprego, consistentemente nos 2 dígitos. A situação inverteu-se com a baixa dos juros e as reformas laborais do Chanceler Schröder, o chamado pacote Hartz IV (não vou prenunciar-me sobre o Sr. Peter Hartz e os problemas na VW...).
A ausência de mobilidade laboral, amputa a Zona Euro e a UE de um estabilizador automático, no contexto de choques assimétricos, como tal outro tipo de mecanismos "federais" deveriam estar implementados.
A Alemanha ou contribui para resgatar os países em crise, às claras, ou terá de resgatar o seu sector bancário. Não andemos a iludir-nos, este é o bottom line. Os pacotes de "ajuda" têm, no fundo, servido para retirar a dívida soberana do balanço dos bancos e dos investidores (gente simpática, que acha que países soberanos não entram em default e que têm de ser "made whole"
nas obrigações que detém). Trata-se de mais um "bail-out", mal disfarçado, à banca europeia; daí o "extend and pretend". Já agora, adivinhem de que zona do mundo eram a maioria das contrapartes das CDS da AIG.
Por favor, chamem os adultos http://www.thelocal.de/national/20110717-36347.html , pois as criancinhas andam há muito tempo no recreio (veja-se também a discussão do "debt ceiling" nos USA) e o adulto que anda a rondar, China, não faz favores sem "serious strings attached".
Os membros "problemáticos" da Zona Euro ou são deixados sozinhos no meio do dilúvio, ou seja, entram em default e depois tentar-se-á apanhar os cacos do sistema bancário/financeiro europeu/mundial ou então dá-se o salto em frente com a emissão de Eurobonds, no fundo, uma união fiscal.
Cacos, pois veja-se o yield das BTP estamos no território dos 6%, a 10 anos...Mas podemos sempre deixar implodir a Zona Euro e dar emoções fortes aos espectadores inocentes que apanharão com os estilhaços...
Se pelo caminho conseguissemos cortar o hiato democrático entre as instituições comunitárias e os cidadãos seria aprazível.
Pensar que deixar os SPIGS entrar em default e tudo será bom é comparável a acreditar na fada dos dentes...
É "make or break"...

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De jfd a 18 de Julho de 2011 às 17:36
E eu ainda devo uma resposta, não foi possível, mas virá!


De jfd a 22 de Julho de 2011 às 22:03
Guilherme já agora já tens opinião sobre a coluna no Spiegel?

E já agora esta http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?contentID=13F1190C-402D-4275-9AE1-222281AD8B8A&channelID=00000091-0000-0000-0000-000000000091

Obrigado!


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