Quinta-feira, 31 de Março de 2011
Como resolver o problema do Trabalho Infantil

Outro dia, numa discussão na mailing list do Psico fui surpreendido pelo facto de esta proposição não ser aceite por diversas pessoas. Ficou então prometido um post sobre o assunto, que aqui segue. Note-se que eu não sou tão bom quanto gostaria de ser a desenvolver argumentos destes e assim este texto é baseado num vídeo de Tom Woods, que publico abaixo.

 

A crítica é numa Economia puramente Capitalista, as crianças são exploradas, enquanto numa Economia intervencionada, os miúdos têm os seus direitos defendidos e passam o tempo na Escola, uma oportunidade que apenas o sábio, benevolente e desinteressado Estado pode proporcionar.

 

Assim, num país em que o Estado não seja muito forte, os pais desse país farão as crianças trabalhar. Não necessariamente todos, mas muitíssimos certamente. O que, claro, pressupõe uma intervenção do Estado para curar o problema.

 

Claro que o que interessa não ver é a causa do problema: Porque é que as crianças trabalham em alguns países do mundo?

As crianças trabalharem é a regra. Ocorreu em todo o lado, durante toda a história. Excepto onde o capitalismo chegou e tornou a sociedade tão produtiva, que gerando excedentes permitiu à sociedade não ser forçada a fazer as suas crianças trabalharem. Não foi “Ok, descobriu-se o Capitalismo miúdos: bora lá trabalhar”. Não, foi o contrário: os miúdos sempre trabalharam. Nunca ocorreu a ninguém antes que os miúdos não haveriam de trabalhar. Só agora, com as vantagens da riqueza proporcionada pelo capitalismo. Antes do capitalismo, as pessoas assumiam que eram pobres, e um dia morriam. Ninguém protestava contra a pobreza ou o trabalho infantile no tempo dos Afonsos. Ninguém. Era a vida.

 

Quando o capitalismo chega, e aparece a possibilidade de reduzir a pobreza, então as pessoas ficam impacientes com a pobreza. E querem eliminá-la o mais rapidamente possível (igualizando a riqueza, reduzindo o incentivo ao seu aumento e portanto parando o enriquecimento da sociedade como um todo). E então aparece o Estado.

 

Voltando ao Trabalho Infantil, este reduz-se então não porque se passa uma lei a dizer “as crianças não podem trabalhar”, mas sim porque a sociedade é

suficientemente produtiva para permitir esse os pais trabalhando geram rendimento suficiente para que os miúdos não tenham de o fazer. Achar que passar uma lei resolve todo e qualquer problema pode ser levado “ad absurdum” a: vamos passar uma lei contra a gravidade e vamos todos voar. Quão infantil é uma visão do mundo assim?

 

Um exemplo: o Bangladesh. Há alguns anos, o Trabalho Infantil era um problema no Bangladesh. Foram feitas campanhas e pressões na Europa e nos Estados unidos e, como resultado, foi passada uma lei contra esse drama num país que ainda não estava economicamente preparado para o enfrentar. Uma organização independente chamada OXFAM reportou que os miúdos ou foram para a Prostituição (e sabem, por pior que seja trabalhar numa fábrica) ou... a partir daí passaram fome. Num país daqueles, se numa família mais de metade do rendimento desaparece, em muitas passa-se fome e em outras morre-se. Morre-se!

 

Até a Organização Internacional do Trabalho (um bastião socialista, pela própria natureza da instituição, que nunca concede nada nestes domínios) admite que a razão porque as crianças trabalham é que a sociedade em causa é tão pobre que as crianças estão a contribuir com pelo menos ¼ do rendimento familiar. E quando as famílias mais pobres perdem ¼ do rendimento familiar...

 

A solução, assim, é mais capitalismo.

 

 

 



uma psicose de Ricardo Campelo de Magalhães às 01:10
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8 comentários:
De Guillaume Tell a 31 de Março de 2011 às 08:36
Hummm, precebo o que queres dizer, mas isso não nos impede de dizer que não é normal ver crianças a trabalhar. Melhor, SÓ a trabalhar, ou a trabalhar como adultos (os meus pais trabalharam no campo e estudaram ao mesmo tempo quando eram criannças). É certo que o fim do trabalho infantil não é um meio mas sim um fim.

Agora deves deixar as coisas assim? Eu costumo dizer que um trabalho ocupado pelo uma criança é um trabalho a menos para um adulto e um passo a mais para a pobreza. O quê necessário é promover a descida da natalidade no mundo subdesenvolvido. E não me venham com a treta que aquele pessoal precisa de ter milhares de crianças para (sobre)viver, ou que não têm hipóteses de controlarem os nascimentos: eu sou tenho 4 tios, contrariamente a muitas pessoas nas aldeias nunca passaram fome, e somos originários de Pinhel.


De Rui C Pinto a 31 de Março de 2011 às 10:07
Concordo contigo, do ponto de vista interno. A questão agora não está no trabalho infantil dentro de uma sociedade ocidental e capitalista, porque aí como bem dizes ela foi erradicada. A questão agora coloca-se no trabalho infantil de países menos desenvolvidos para a produção de bens a ser consumidos nos países capitalistas.

É claro que podes analisar a coisa dizendo: se esses países se desenvolverem e evoluírem para uma sociedade capitalista também erradicarão o trabalho infantil. Certo. Porém, há outro problema. É que a par do desenvolvimento do capitalismo houve o desenvolvimento de noções de direitos humanos que é impossível contornar. Portanto, tens um conflito entre emoção e razão, em último caso. Não adianta dizer que antigamente as crianças trabalhavam e era a vida... Porque do antigamente para o agora, a "consciência" mudou...


De Ricardo Campelo de Magalhães a 31 de Março de 2011 às 11:27
Uma vez economicamente possível, este problema pode então ser erradicado legalmente, para garantir que não haja "bolsas de população" em que subsista.
Nunca no sentido inverso.

Dizendo de outra forma:
O aspecto legal serve apenas para impor a uma minoria dadas 2 condições: ser economicamente possível e a maioria da sociedade ter a vontade de impor essa prática à restante.


De Guillaume Tell a 31 de Março de 2011 às 12:23
Mas para ser economicamente possível é necessário provocar as coisas, ou seja é necessário que a população não cresça mais que a riqueza. Aí é que está o cerne da questão.

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De Ricardo Campelo de Magalhães a 31 de Março de 2011 às 12:32
Oh não, Malthus está de volta...

Esse problema não existe.
É dificílimo explicar isso, mas pensa só no seguinte: já reparaste que o Paquistão tem uma economia de crescimento explosivo e duplica de população em poucas décadas, e que Portugal tem uma população estagnada e um crescimento também estagnado? Já reparaste que o crescimento económico é um dos MOTIVOS para o crescimento da população e que geralmente essas variáveis andam a par? Já reparaste que quando este crescimento está ausente (ex: Portugal), os casais em idade proprícia para terem filhos absteem-se de tal, funcionando como travão automático ao crescimento populacional?
Se calhar o próximo post longo deverá ser sobre esse tema...

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De Guillaume Tell a 31 de Março de 2011 às 13:03
Está bem Ricardo, mas tú sabes muito bem que não serve a nada termos um crescimento da população superior ao crescimento da economia. Pode resultar durante uns anos (entre 10 e 20) mas dia menos dia as consequencias se farão sentir (desemprego, pobreza, emigração).
Não é o crescimento da população que permite o bem estar de um país. É o crescimento económico que o permite (depois é claro que o crescimento populacional vai seguir é normal, e bom).

PS: e não me venhas com o crescimento extensivo, sabes bem que o melhor crescimento é intensivo :P

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De Ricardo Campelo de Magalhães a 31 de Março de 2011 às 13:30
Então dizes "está bem" e depois insiste na teoria de Malthus? ;)

Vamos lá a ver, de acordo com a teoria de Ricardo (num sentido lato), temos:

1. O crescimento populacional é irrelevante.

2. O relevante é o crecimento da produtividade e, em consequência, do Produto por habitante. Repara que isto mais uma vez reforça o ponto 1 e que é bem diferente do que dizes, que basicamente é "para mantermos a produtividade, é preciso manter a população estável". A tua solução é conter a população, a minha é tornar todos mais produtivos. No teu mundo, parece que a riqueza é finita e chega para todos. No meu mundo, a riqueza é infinita e quantos mais houvermos, maior a probabilidade de haver inovação e de o futuro ser melhor que o dia de hoje.

3. De onde foste buscar os 10 a 20 anos? Dos ciclos de Juglar? Porquê a preferência por esses relativamente aos de Kondratieff? Ou foset buscar uma ou duas estações deste?

4. O desemprego ser consequência do crescimento da população?!? Estamos perante uma nova versão do receio de que as máquinas vão provocar desemprego de 98 a 99%?

5. Qual é o objectivo de uma economia para ti? Parece ser o ataque ao desemprego, em do crescimento da riqueza...

6. Essa do crescimento intensivo e extensivo denota vocabulário marxista ;) De qualquer das formas, eu concordo que o melhor crescimento é o intensivo. Tu, que acreditas que se deve controlar a população, é que tens de discordar. Por uma questão de coerência. Ou então, não faz sentido a tua afirmação e os meus pontos 1,2&4 não deveriam existir.

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De Guillaume Tell a 31 de Março de 2011 às 16:49
Vamos lá resolver as coisas:

1) Crescimento populacional é irrevelante enquanto estiver abaixo do crescimento da riqueza.

2) Estou de acordo quando dizes que temos de tornar toda a gente produtiva (eu nunca disse que a riqueza era finita só não quero que a população cresce acima dela, nuance).

3) 10 a 20 anos vêem de por causa da entrada das gerações mais novas no mundo do trabalho (e penso em particular no caso de alguns países africanos que estiveram bem durante 10 a 20 anos, nomeadamente a Costa de Marfim e os Camarões, e depois veio o que disse Malthus, entre outras coisas).

4) O desemprego acontece quando a população cresce mais que a riqueza (ou que a produtividade cresça mais que a riqueza mais isso já é outro capítulo).

5) A economia para mim tem que fazer desaparecer a pobreza, o desemprego, a precariedade, as desigualdades sociais e regionais e promover a qualidade de vida. Mas tenho de fixar prioridades ponho a luta contra o desemprego em primeiro lugar (e não me venhas chatear com "vais criar emprego público para isso né?" que não é isso).

6) O controlo da população não é um fim, é um meio.E por controlo entendo crescimento económico > crescimento populacional. Mai nada.

Marxista... porque sou do povo e fiquei fiel à matriz de origem do partido, ao contrário de tí ó tubarão neoliberal :P
LOL


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