Sábado, 28 de Novembro de 2009
A Ética Católica e o Desequilíbrio Normativo

 

Há algum tempo atrás, vi uma palestra de Ayn Rand, proferida nos anos 60, em que ela explicava a dicotomia Capitalismo Comunismo ironizando que a “moral mística do altruísmo” é nefasta não só para a economia mas também para as liberdades individuais.

 

A ideia que Rand tenta fazer passar é que a moralidade não é um bom guia para a economia, que é uma ciência. A economia é amoral e enquanto ciência tenta apenas optimizar a produção, distribuição e consumo de bens e serviços. Nada impede que façamos o nosso melhor para ajudar os demais na nossa vida privada mas sacrificarmos a nossa performance económica em nome de princípios metafísicos é derradeiramente contra-producente para todos.

 

Nos países protestantes, a ética e a moral incutem isto mesmo na sociedade e o equilíbrio entre meritocracia e solidariedade é deixado ao governo bem como às IPSS.

 

 

O problema dos países de ética católica está em que existe um claro desequilíbrio filosófico pois tanto o governo como a sociedade professam o altruísmo moralizador. A doutrina social da Igreja inocula-o há milénios e o socialismo moderno pratica-o no executivo.

 

A consequência directa deste facto é que os valores levam a uma desresponsabilização geral da sociedade. Em Portugal não há condenados em grandes processos judiciais porque o direito português é excessivamente garantista. Também as carreiras políticas são longas já que todos têm direito a uma segunda oportunidade. Finalmente, a competitividade é fraca porque o empreendedorismo e o risco são vistos com maus olhos e como tal as universidades produzem empregados em vez de investidores, o processo legislativo produz rigidez (para protecção) laboral em vez de flexibilidade de mercado (leia-se investimento).

A quintessência deste desequilíbrio é o Partido Socialista. O partido que lutou pelas liberdades cívicas contra o Estado Novo e em cujos ideais a actual constituição mais se inspirou. O partido que se bate pelas causas progressivas mas cujos líderes são católicos. O partido que promete o modelo económico sueco mas cujos militantes privam com Chavez e Castro.

 

Na verdade, o socialismo é forte em países latinos precisamente porque a ética social deriva da matriz cristã-católica que prolonga valores medievais como a nobreza ou o auto-sacrifício em prol do colectivo.

 

A mentalidade cívica é incipiente no nosso país que em vez de pragmaticamente escolher o menor dos males na urna, prefere esperar pelo estadista carismático providencial, abstendo-se ou votando em branco. Ela é incipiente pois sistematicamente escolhe o sonho dos “Estados Gerais” ou do “Choque Tecnológico” – na vertente do “New Deal”, “Great Society” ou “New Frontier” – em detrimento da realidade.

 

Manuela Ferreira Leite disse “Prometemos apenas aquilo que sabemos poder cumprir”, Cavaco que “Portugal não pode continuar (…) a endividar-se (…) ao ritmo dos últimos anos”. No lado do PS, Jorge Sampaio afirmou que havia vida para além do défice e Sócrates que tínhamos que ser positivos.

 

O PSD falava para os cidadãos responsáveis, o PS falou para os Portugueses…

 



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 08:41
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46 comentários:
De Luís Nogueira a 29 de Novembro de 2009 às 11:07
"O partido que se bate pelas causas progressivas mas cujos líderes são católicos." - Sim, Sócrates e Guterres... Mas... E Mário Soares? Almeida Santos? Jorge Sampaio? [...] Voltarei mais tarde...


De José Henrique a 29 de Novembro de 2009 às 12:49
Se bem entendo esta psicose, o seu autor pretende afirmar que "o socialismo é forte em países latinos precisamente porque a ética social deriva da matriz cristã-católica que prolonga valores medievais como a nobreza ou o auto-sacrifício (*) em prol do colectivo", o que provoca "desresponsabilização geral", "economia pouco competitiva" e "desprezo pelas liberdades individuais".

Ou seja, para o autor, socialismo e catolicismo são duas faces da mesma moeda. E essa moeda não se chama euro ou dólar, chama-se subdesenvolvimento.

Não posso estar em maior desacordo.

Se o estimado Miguel olhar com maior atenção para o mapa que colocou na sua psicose vai-se surpreender por ver, por exemplo, que em regiões "paupérrimas" como o Norte da Itália, a Suíça, a França, a Catalunha, o País Basco, Madrid, a Baviera, a Renânia, a Bélgica, o Sul da Holanda ou a Irlanda a confissão sociológicamente mais influente é a católica.

Diz-nos, ainda, que se "a economia sacrificar a nossa performance económica em nome de princípios metafísicos" isso é "derradeiramente contra-producente para todos".

Trata-se de uma ideia enganadora, na medida em que defender que a performance económica deve ser guiada pelo egoísmo é, já em si, um princípio metafísico, um vector ideológico sobre qual deve ser a finalidade da performance económica: a pura obtenção do lucro. Outros defenderão que a finalidade da performance económica será o desenvolvimento da pessoa humana com o contributo do crescimento da riqueza, outros que será a apropriação colectiva dos meios de produção, etc.

Posteriormente, o autor faz algumas alusões ao "caso português".

Bom, defender que o PS lutou pelas liberdades cívicas contra o Estado Novo é, no mínimo, muito discutível. Trata-se de um grupo de amigos exilados que se encontrava ocasionalmente em tertúlias e que, em 1973 na Alemanha, decide autoproclamar-se Partido Socialista. Falar de luta contra o Estado Novo é brincar com quem verdadeiramente fez essa luta.

"O partido que se bate pelas causas progressivas mas cujos líderes são católicos." : o único líder católico do Partido Socialista foi António Guterres. A única justificação que encontro para esta frase é ter baralhado o PS com o CDS, já que até o próprio PSD já teve, ao que sei, 3 líderes que não foram católicos.

Por fim, resta-me dizer que concordo, a 100%, com os 2 últimos parágrafos.

Concluo com uma citação do Compêndio da Doutrina Social da Igreja:

«O amor cristão move à denúncia, à proposta e ao compromisso de elaboração de projectos em campo cultural e social, a uma operosidade concreta e activa, que impulsione a oferecer o próprio contributo todos os que tomam sinceramente a peito a sorte do homem. A humanidade compreende cada vez mais claramente que está ligada por um único destino que requer uma comum ASSUNÇÃO DE RESPONSABILIDADES, inspirada num humanismo integral e solidário; vê que esta unidade de destino é frequentemente condicionada e até mesmo imposta pela técnica ou pela economia e adverte para a necessidade de uma maior consciência moral, que oriente o caminho comum. Estupefactos pelas multíplices inovações tecnológicas, os homens do nosso tempo desejam ardentemente que o progresso seja votado ao verdadeiro bem da humanidade de hoje e de amanhã.»

www.ecclesia.pt/cdsi - ponto 6

(*) a nobreza e o auto-sacrifício já existiam enquanto valores da humanidade muito antes da Idade Média e, também, muito além do espaço cultural europeu: não é, portanto, justo classificá-los como valores medievais


De Miguel Nunes Silva a 29 de Novembro de 2009 às 13:16
Luís,

Eu disse "líderes" não disse "todos os líderes".

A ciência política não é uma ciência exacta. Falo de tendências.

No entanto o meu argumento é que o catolicismo e o socialismo não são incompatíveis, como muitos pensam.


De Miguel Nunes Silva a 29 de Novembro de 2009 às 13:20
José,


Antes de mais, obrigado pela atenção ao artigo e pelo comentário detalhado.


Socialismo e catolicismo não são a mesma coisa. O problema de países latinos como o nosso é que estão normativamente desiquilibrados - em termos de competitividade económica, claro está.

Ou o socialismo, ou o catolicismo seriam toleráveis desde que isolados e equilibrados por uma doutrina - ou social, ou de governação, respectivamente - que não permitisse que se perpetuasse a imaturidade cívica de que falo.


De Miguel Nunes Silva a 29 de Novembro de 2009 às 13:31
José,


"em regiões "paupérrimas" como o Norte da Itália, a Suíça, a França, a Catalunha, o País Basco, Madrid, a Baviera, a Renânia, a Bélgica, o Sul da Holanda ou a Irlanda a confissão sociológicamente mais influente é a católica."

Pois, mas todas essas regiões têm algo em comum: é que são regiões do norte ou centro da Europa.
A escola da geografia política demonstra perfeitamente como a geografia, topografia, clima, etc, afectam seriamente a competitividade económica de um território.

De qualquer modo, alguns dos seus exemplos demonstram bem o meu argumento: na Bélgica o sul católico é menos desenvolvido que o norte protestante, a mesma coisa na França, na Alemanha (a Baviera é menos industrializada que o norte - a excepção seria mesmo a Renânia,).

...


De Miguel Nunes Silva a 29 de Novembro de 2009 às 17:26
José,


Em relação ao egoísmo, tal como Rand defende, se equilibrado por outros valores, a auto-valorização traz responsabilidade e civismo consciente e empreendedor.

É demasiado simplista dizer que egoísmo é mau.
Isso é apenas o politicamente correcto incutido nas nossas mentes a falar.
Infelizmente a verdade é que sem alguma dose de individualismo, não somos muito competitivos.

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Bom, quando digo lutou, quero dizer que se bateu pela causa. Muitos socialistas foram exilados ou forçados a fugir por defenderem certos ideais.
Temos que lhes reconhecer isso.

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Quanto aos líderes, talvez devesse ter escrito liderança ou mesmo militantes. Certo é que o catolicismo é demasiado prevalente num partido que se afirma socialista...

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Mais uma vez obrigado pelo seu contributo para este debate.


De Ricardo Campelo de Magalhães a 29 de Novembro de 2009 às 18:12
Portanto, viste um documentário em Ayn Rand e decidiste escrever um Psicomentário. Bem, vamos lá ver se nos esclarecemos sobre o Capitalismo e o Liberalismo Económico.

1) Apesar de a Economia ser amoral, ou seja, independente da moral, como Adam Smith (ele prórpio um professor de moral!) disse, se fores pela moral e pela economia chegas aos mesmos comportamentos, óptimos em termos morais e económicos.

2) O teu conceito de Valor parece ser apenas Valor contabilístico e não económico. O valor contabilístico é plenamente medido em unidades monetárias. Já o económico é medido em utilidade, ou prazer, pelo que sacrificarmos bens, serviços ou moeda em rpole de outros pode ser maximizador da nossa utilidade. Madre Teresa era uma empreendedora ou uma capitalista como Belmiro de Azevedo, Bill Gates, Henry Ford ou outros, simplesmente maximizava a sua função utilidade no sector humanitário. Porque isso para ela tinha valor! Esclareci? Se não, avisa.

3) O que é ou não contra-producente para todos depende de mais factores do que dos elencados. Eu não me metia nisso assim só com uma penada =)

4) O que é incutido nas sociedades protestantes? Perdi por aí o teu raciocínio, mas pelo menos não concordo em realção à Solidariedade, pois esta é bem emnor nessas sociedades. Ainda na semana passada a minha namorada, por acaso alemã, me comentava como em Portugal não há pessoas a viver na rua como na Alemanha!

5) Qual é mesmo o problema das sociedades católicas? Sermos altruístas ou elegermos demasiado governos socialistas?

6) Os governos socialistas não o praticam no executivo! Quanto mais dinheiro taxas aos ricos e dás sem nada exigir aos pobres, menos ricos terás e mais prendes as pessoas na pobreza: é tudo uma questão de incentivos!
Se não te parece óbvio este conceito, recomendo a leitura do artigo: http://mises.org/daily/3822

7) Concordo com a parte sobre Portugal... =(

8) Quem te disse que a ética Cristã sugere o sacrifício em prol do colectivo mentiu-te. Podes confirmar em: http://mises.org/daily/3594

9) Infelizmente, o PS faz a política de "Votes now, Burst later", e a verdade é que se tem safado por ignorância económica geral em Portugal =(


De Ricardo Campelo de Magalhães a 29 de Novembro de 2009 às 18:28
Mais dois comentários sobre os restantes posts:

"A escola da geografia política demonstra perfeitamente como a geografia, topografia, clima, etc, afectam seriamente a competitividade económica de um território."

Gosto do verbo "demonstra" e do advérbio de modo "perfeitamente". Dão força. Infelizmente referem-se a um disparate, pois se é que esses factores têm influência, há outros muito mais importantes.

Para não me alongar muito vou só dizer que em vez de vivermos todos na Gronelândia, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Islândia, as civilizações mais florescentes ao longo da história foram sempre as do Til, ou seja, desde Portugal ao Japão, passando pelo centro da Europa, médio Oriente, sub continente indiano e China. Mais populosas, mais ricas, mais expansionistas. Climas variados, geografia dispersa, topografia diversa. Hmmm...

Nem vou começar com os factores que eu considero mais importantes. Mas esses... parece-me que não são =)

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O egoísmo é irrelevante. Pode ser bom ou mau, de acordo com os vossos valores, mas não tem impacto económico significativo.
Claro que pessoas egoístas são à partida produtivas, o que é bom. Mas essa produtividade pode ser induzida por uma bateria de incentivos adicionais, tornando o egoísmo substituível e, logo, pouco valioso.
Se no mercado de valores, vocês seleccionarem os católicos, então egoísmo em exagero é mau, mas em termos económicos...

Já agora, um link para um vídeo com os conceitos básicos do Liberalismo Económico, feito pelos residentes de Keene, uma das cidades mais libertarianas dos EUA: http://www.youtube.com/watch?v=8z1buym2xUM


De Miguel Nunes Silva a 29 de Novembro de 2009 às 22:00
"se fores pela moral e pela economia chegas aos mesmos comportamentos, óptimos em termos morais e económicos"

E chegas a esta premissa como?

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"Esclareci? Se não, avisa"

Eu percebo o que queres dizer. Contudo eu não falo apenas em dinheiro.
Poderíamos falar também em paz social, eficiência governativa ou infraestrutura no geral.

Ou seja, se é verdade que podemos ser mais felizes que os escandinavos por exemplo, também é verdade que dificilmente podemos competir com eles na maioria dos áreas produtivas.

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3) Pois, mas eu não posso estar a escrever uma tese académica num post de blog.
Este post foi curto porque teve que ser curto...

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4) Pois, isso de viver nas ruas tem a ver com o tecido social, que não é tão unido em sociedades setentrionais como é nas latinas.
No entanto, viver na rua ou viver numa barraca com 8 filhos na miséria, por vezes não é muito diferente...

Em relação ao que é incutido, aquilo que é incutido é o individualismo. Nas sociedades protestantes a relação com Deus é pessoal e isto implica que as pessoas assumam responsabilidade e tentem honrar Deus pessoalmente em vez de se apoiarem nos demais ou em vez de se sacrificarem pelos demais.

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5) O problema é fazermos as duas coisas ao mesmo tempo.

É importante sublinhar que apenas digo que seria importante termos um equilíbrio de princípios de forma a sermos mais competitivos.

É óbvio que há quem possa pensar que não devemos abdicar da nossa natureza por razões económicas e que como tal nos devemos habituar a não sermos tão competitivos como outros países e sociedades.
Esta posição é perfeitamente legítima!

O que quero dizer é que com a globalização, se queremos realmente competir, temos que mudar de atitude, ou na sociedade ou no governo.

Sendo a minha preferência, o governo.


De Miguel Nunes Silva a 29 de Novembro de 2009 às 22:11
6) Sim, concordo. Mas essa política perversa de incentivos e desincentivos que descreves advém do sistema de valores socialista ...e católico.
(se me direccionas para o Inst. von Mises, já vejo que és neoliberal ...)

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7) Para já eu disse cristã-católica.

Mas de facto, a crítica do artigo à encíclica, justifica o meu argumento.
O Papa, tal como os socialistas, tenta moralizar a economia. Isto tem tem consequências nefastas para a mesma.
Daí que eu tenha dito no post e repito-o agora, que nas sociedades nórdicas seja justificável o estado tomar um papel redistributivo mas não em sociedades como a nossa.
Na nossa sociedade, a moralidade já condena a desigualdade e o individualismo. Os ricos são os maus e os pobres são os bons.
Logo, todos os movimentos cívicos se dedicarão a ajudar os desfavorecidos e a penalizar os cidadãos de altos rendimentos, mesmo sem o estado intervir escessivamente, como faz hoje.

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9) Inteiramente de acordo!


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