Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Rendimento Social de Exclusão

 

 
Henrique Raposo, in Expresso

"No ano passado, a violência rebentou na Quinta da Fonte. Agora, a Bela Vista é o novo cenário da dita violência. Quando estalam estes focos de caos suburbano, o país inteiro tem a mania de pedir explicações ao ministro da Administração Interna. Onde estão os polícias? Onde está a firmeza policial? Estas preocupações são importantes, mas estão situadas a jusante. A montante, o país esquece-se sempre de pedir explicações a outro ministro, o ministro da Segurança Social. Aquilo que está em causa na Bela Vista é a eficácia das políticas sociais, sobretudo do Rendimento Social de Inserção (RSI). 

Nas Belas Vistas e nas Quintas das Fontes, a solução não passa por mais polícia, mas sim por menos subsídios. As pessoas acomodam-se ao RSI.

Este tipo de subsídio acaba por criar um ambiente de impunidade e de ausência de responsabilidade, que funciona como a antecâmara perfeita para o vandalismo juvenil. Nestes bairros, os filhos comportam-se como vândalos, porque os pais são tratados como crianças pelo Estado. Se calhar, já vai sendo tempo de tratar estas pessoas como adultos. Estas pessoas têm de ser tratadas como cidadãos, e não como cidadãos-crianças. Enquanto tiverem uma mesada assegurada (RSI), estas pessoas precisarão sempre de uma babysitter permanente (polícia em cada rua). Por outras palavras, é preciso acabar com a lógica do 'coitadinho'. 

O percurso dos 'coitadinhos' que vandalizam as Belas Vistas e as Quintas das Fontes é sempre o mesmo. Na escola, o 'coitadinho' bate na professora, mas como é 'coitadinho' nada lhe acontece. Na rua, o 'coitadinho' rouba uma criança 'não-coitadinha', mas como é um 'coitadinho-menor' fica impune. Quando chega a casa, o 'coitadinho-filho' repara que o 'coitadinho-pai' não paga a renda, a luz e a água. Ainda por cima, o 'coitadinho-filho' vê que este comportamento compensa, dado que o 'coitadinho-pai' continua a receber o cheque mensal do RSI. Ora, se as diversas faces do Estado (escola, polícia, município, segurança social, etc.), tratam estas pessoas como crianças durante o dia, então elas vão agir como crianças durante a noite: daí a destruição dos carros dos vizinhos, daí a queima de caixotes do lixo, daí os ataques a bombeiros e polícias - os desportos noctívagos dos cidadãos-crianças

A causa deste vandalismo não é a pobreza per se. O 'pobre' não é um vândalo em potência. A causa desta barbárie suburbana é a falta de uma cultura de responsabilidade. A identidade destes jovens suportados pelo RSI constrói-se em redor do desprezo pelo trabalho. Aquele que trabalha das 9 às 5 só pode ser um 'otário', aos olhos destes gazeteiros. Aliás, "trabalho é p'ra totós" é o slogan que sustenta a identidade dos gangues suburbanos. E o pior é que esta cultura é financiada pelo Estado. A montante desta violência mediática encontramos um silencioso processo de infantilização, que é normalmente mascarado pela expressão 'Rendimento Social de Inserção'. Sucede que esta coisa tem muito pouco de inserção. O RSI é, na verdade, um Rendimento Social de Exclusão.

Existe uma relação entre o RSI e a exclusão social. Os 'piores' vêm sempre de famílias encostadas ao subsídio. Lamento, mas é assim. Não me odeiem por eu dizer isto. Odeiem a realidade, porque eu estou apenas a apontar para um facto. Não acreditam? Então experimentem fazer antropologia suburbana durante quinze dias".

 



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 08:41
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10 comentários:
De Ricardo Campelo de Magalhães a 6 de Novembro de 2009 às 12:06
Um grande comentário.
Este tipo de políticas tem sempre esses resultados, mas poucas pessoas o vêm e menos ainda o percebem.
Para quem estiver interessado nestes assuntos, com uma perspectiva americana, por favor vá a www.cato.org
Há também 2 podcats, um de vídeo semanal e um de áudio diário, q eu recomendo. O último de vídeo é sobre a falta de um "Julgamento de Nuremberga" para o Comunismo, em que este fosse moralmente condenado pelo que fez.


De jfd a 6 de Novembro de 2009 às 13:05
Ler isto, e pensar no Governo que está no poder só me dá vontade de suspirar e ficar triste com o futuro...
Desde Guterres que criamos e alimentamos a geração perdida portuguesa...


De Ticha a 6 de Novembro de 2009 às 15:18
Aqui está uma grande verdade, esta situação vem sendo alimentada desde os tempos de Guterres, o pai do rendimento mínimo e consequentemente da politica do desgraçadinho. Não há muito tempo ainda que se tinha receio de invocar nomes, curiosamente a primeira pessoa que ouvi falar sobre a origem deste facto social foi um professor universitário e falava a medo. António Guterres, conseguiu deixar tudo num pântano e ainda é premiado com o cargo de alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Nem quero imaginar onde o Socas pode chegar...


De CatarinaRF a 7 de Novembro de 2009 às 15:07
em vez de resolver o problema, tornou-se em mais um contributo para o nosso país de "subsidio-dependentes"...


De Elisabete Oliveira a 7 de Novembro de 2009 às 19:36
Tal como todos os fenómenos sociológicos, só quando a situação assume indices de gravidades alarmantes se torna visivel para a maioria das pessoas.

Há uma junção de elementos que tornam esta combinação tão preocupante.

Aquele que mais me preocupa é sem dúvida a noção de responsabilidade, de esforço e de mérito.

onde é que elas estão?

Começando no contexto escolar, onde se pede a miudos de meios socialmente desfavorecidos que apenas não causem problemas na escola, com curriculos cujos conteudos nada exigem e ensinam.

No máximo são entretimento. Com muitos desenhos e horas na biblioteca.

Sim. estamos a falhar redondamente. no que damos e no que pedimos.

E acho que tudo istoestá mesmo só a começar.


De GFC a 9 de Novembro de 2009 às 03:36
Sou acérrimo defensor do RSI, alias, com julgo que quase todos aqui o deverão ser.

É mal distribuído? Sim. É a causa de todo os males? Nem pensar, é antes o resultado inevitável de políticas falhadas.

Não concordo portanto, com 90% do que o autor escreveu. Quero acreditar que metade do que disse tenha sido exacerbado pelo sentimento de injustiça que sente, e que de facto, reina nessas ilhas urbanas do nosso querido "Poor"-tugal.

Conheço bastante bem as zonas desfavorecidas de Almada e Setúbal, através do voluntariado e de algumas parcerias que tenho levado a cabo em Territórios Escolares de Intervenção Prioritária (TEIP).

Julgo que tocou em pontos-chave, o que demonstra perspicácia. Mas falhou na abordagem, o que demonstra desconhecimento. Um desses ponto-chave é, para mim - e pelos vistos para si - a educação/infância/juventude.

Fala de crianças "coitadinhas". E são de facto. Não porque os pais são pobres, ou recebem o RSI, mas porque são negligenciadas. Quer em casa, quer na escola. O destino destas crianças, mais tarde delinquentes está traçado à nascença. Primeiro por uns pais que não são pais, antes fieis-depositários de um ser humano. E em segundo por um país e pelas suas instituições que se demitem das suas funções.

Mas sim. É verdade são coitadinhos.

Além de terem pais que não são pais, as instituições do estado naquelas zonas, salvo honrosas excepções, são uma vergonha.

Crianças que fazem um 1ºciclo inteirinho em escolas que mais parecem antecâmaras de estabelecimentos prisionais têm de ser coitadinhas. Escolas, que por ordem dos agrupamentos, têm 5 minutos diários de intervalo, porque dentro de uma sala e sentados é mais “fácil” domar-se os selvagens de palmo e meio não podem ser crianças normais.

Como são crianças, crianças “de ninguém”, e portanto, ninguém se importa com elas, transitam de ano-em-ano a fazer fichas de desenho, chegando ao 2º ciclo sem saber, muitas delas, ler ou escrever de forma digna desse nome.
O destino do insucesso está traçado. Ninguém lhes pede nada, nem lhes é dado nada. O “não vale a pena…” ouve-se tanta vez. Coitadinhas…

Chegados ao segundo ciclo, misturados com colegas de outros meios, a diferenças são por demais evidentes. Sem rotinas e hábitos de estudo, ou sequer capacidade de sociabilização, o ciclo continua… Vão sendo passadas ano após ano. E quando os métodos coercivos dos professores já não resultam, porque a idade e o entendimento é outro, mas principalmente porque não têm noção do que é viver em sociedade sem ser por opressão, tornam-se violentos: Agora é a nossa vez de nos vingar destes sacanas que são os profs!

Acabado o ensino obrigatório pronto… passaram a maioria das suas ainda curtas vidas, entre uma casa vazia e uma “escola de nada”.
Mercado de trabalho? Ninguém os quer!
E assim se inicia uma longa vida dependentes dos RSI e companhia…

No nosso Poortugal há duas fórmulas para “desenrascar” os problemas da nação: 1- ignora-se o problema 2-atira-se dinheiro para cima do problema.


De GFC a 9 de Novembro de 2009 às 03:41
(segunda parte...)

Neste caso aplica-se as duas fórmulas.

Já agora? Já alguma vez pensaram porque é que os ciganos são tantas vezes associados ao tráfico e aos roubos? Resposta: Porque abandonam a escola cedo.Além de não serem educados “por e para a sociedade”, depois, sem qualificação, ficam sem alternativa.

Por tudo isto, atribuir o RSI – até para que os suburbanos não saiam do buraco – é essencial.

Mais. Parece-me uma justa indemnização pela omissão do dever de conduta do estado durante toda a vida destes cidadãos.

Quem paga? Nós claro! Os de sempre…

E não se vai lá com penas mais pesadas nem com mais polícias na rua. Isto não se resolve por decreto-lei… mas por mais e melhor educação.

Não fosse “os braços abertos” do nosso Poortugal a receber poorpulação de outros países, e talvez pudéssemos construir ensino em qualidade e não em quantidade.

Isto tudo para dizer que o RSI faz falta, mais fiscalizado claro, mas que não é a mãe de todos os problemas. Bem plo contrário! É o preço que pagamos para não ter os subúrbios, como em Paris, a entrar pelas portas das nossas casas.

O mal disto tudo foram os anos e anos de políticas erradas, inclusivamente do nosso querido PSD.

Partidos? Que locais tão mal frequentados...
Temos de ser nós a dar a volta a isto, PSD.

Cumprimentos a todos,

PS(D): Isso dos alunos coitadinhos que batem nos professores não existe. É treta. Ou pelo menos, um fenómeno, esporádico e muito pontual. O dia-a-dia das escolas não é esse. O 24h e o CM não sabem o que dizem. O que não quer dizer que às vezes não seja pior… mas não nesse sentido.


De GFC a 9 de Novembro de 2009 às 03:55
Já agora... e falando de soluções.

Deviam ser as autarquias, ou mesmo até a administração central, a ter centros administrativos nestes locais. Onde os "RSI's" tem um nome e um rosto.

Centros administrativos que deviam trabalhar em conjunto com o excelente associativismo - sempre muito organizado - que existe naquelas zonas.

Mais material escolar, roupa e alimentação do que dinheiro.

Alias, todos sabem disto, e até é uma das propostas do CDS. Não é novidade nenhuma.

Mas mais uma vez, é a direita que é mais social que os socialistas.

Umas belas "guidelines" para a Sec. Estado para a Igualdade reflectir nos seus (certamente escassos...) momentos livres.


De Miguel Nunes Silva a 9 de Novembro de 2009 às 08:52
Muito interessante GFC, muito esclarecedor.

Obrigado pelo seu contributo.


De jfd a 9 de Novembro de 2009 às 21:57
Deveras interessante! Obrigado mesmo.


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