Domingo, 30 de Dezembro de 2012
O Triplo Embaraço de François Hollande

 

 

Eu não gostaria de ser François Hollande por estes dias já que a lei mais emblemática que se propôs passar (taxação a 75% sobre as grandes fortunas) acaba de ser declarada inconstitucional pela Justiça Francesa.

 

Hollande sai mal e muito mal de toda a polémica: 

 

1 - Todos disseram que tal lei iria provocar uma fuga de capitais; a esquerda teimou que não; viu-se...

 

2 - Hollande chegava como arauto da anti-austeridade; em França não teve alternativa se não fazer cortes e na Europa, aonde ele iria trazer solidariedade quando Sarkozy e Merkel apenas traziam austeridade, aquilo que se verifica é que Merkel é hoje mais popular que nunca, a política de austeridade continuou (os bolsos que a pagam não são Franceses) malograda a tentativa latina de lobby pela França, Espanha e Itália, e os novos poderes do BCE aumentam a discreção Alemã sobre política fiscal.

 

3 - Hollande era também um euro-federalista sendo a Europa um ideal de unidade pelo qual lutar mas todo este episódio mostrou que na realidade para a França a Europa pode ser tanto uma oportunidade como um risco: influência de países mais fortes nas decisões tomadas, competição no mercado comum de economias mais dinâmicas que a Francesa.

 

As esquerdas são isto: muita promessa para no final restar apenas a vergonha e a desilusão. Bem vindo ao planeta Terra Sr. Hollande.



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 10:26
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5 comentários:
De Vilma CR a 30 de Dezembro de 2012 às 14:12
Sem dúvida Miguel, para a esquerda é tudo preto e branco. Acontece que no mundo real há mtas gradações de cinza. Resolver problemas estruturais de um país por decreto não é a solução. Antes fosse!!


De Hugo a 1 de Janeiro de 2013 às 21:10
Sim, Vilma, porque a direita é muito boa em tons de cinzento. Não há tanta gente de direita que acha que cobrar nem que seja um 10% de impostos sobre rendimento é o equivalente a um estado estalinista, que quem beneficia de protecção social é quase por definição um parasita social, que trabalhadores que fazem greve são uns perfeitos irresponsáveis e ignorantes, que questionar a completa desregulação do mercado - nem que seja por mero exercício filosófico - é um acto de falência intelectual e que a ideia de responsabilidade social é só para os pobres que não são "geradores de emprego" e quem diz o contrário é um "caça-ricos" leninista.

Há aspectos positivos e negativos tanto à esquerda como à direita, mas há gente preconceituosa em ambos os lados da barricada que não percebem isso.

Tanto quanto julgo saber, o chumbo das políticas do Sr. Hollande deveu-se a pormenores técnicos e não de princípio. E muito possivelmente ao facto de todos os membros do TC Francês terem sido nomeados pelo governo anterior de Direita.

(vide Público 29-12-12)


De Hugo a 1 de Janeiro de 2013 às 22:29
Ainda sobre a taxação a 75% das grandes fortunas. Eu entendo que seja díficil para alguém de direita liberal perceber o bom-senso desta medida (talvez não seja tão dificil para a direita conservadora). É que ao contrário do que pensam os liberais, política não é SÓ economia (assim como a esquerda por vezes se esquece que a política TAMBÉM é economia).

Seguramente que Hollande e os seus conselheiros conhecem o conceito da Curva de Laffer. Sabem os riscos de que aumentar os impostos poderá levar a fuga de capitais. Mas consideremos um dos principios filosóficos basilares do liberalismo: a de que o ser humano é essencialmente egoista e tenta maximizar o seu interesse pessoal e a sua liberdade individual. Uma forma de exprimir este principio é a de que o ser humano procura sempre não ser inferior a ninguém.

Ora, estamos num contexto em que a austeridade está a ser imposta sobre a classe média com a justificação de que tal é necessário para bem da nação e das contas públicas e logo de todos os cidadãos (vou assumir aqui que a austeridade é mesmo inevitável). Baixar os impostos sobre a classe alta ou mantê-los inalterados enquanto se aumenta a carga fiscal ou se baixam os rendimentos da classe média (e baixa) iria inevitavelmente gerar o sentimento de que a classe média (e baixa) tem de se sacrificar mais pela nação do que a classe alta e que estas classes são, para todos os efeitos, inferiores. Ou seja, há cidadãos de primeira e cidadãos de segunda a quem um esforço maior para remediar os problemas da nação é exigido, sendo essa divisão feita apenas com base na fortuna pessoal. Este é o tipo de medida que leva a uma profunda agitação social, não porque as pessoas são iludidas por ideologias de esquerda, mas porque as pessoas são egoistas e não querem ser inferiores a ninguém.

Impor estes impostos altissimos sobre as grandes fortunas pode até ter consequências negativas nos lucros do estado (como sugerem exemplos da Curva de Laffer). Mas leva a que a classe média e baixa (que são as mais numerosas) sintam que os sacrificios que lhes estão a ser impostos são proporcionalmente iguais para todos os cidadãos, incluindo os mais ricos. Logo, não se sentirão inferiores, não provocarão agitação social (na forma de greves e protestos) e serão animados por um sentimento saudável de cidadania, patriotismo e esforço repartido. É mesmo possível que este sentimento de motivação e esforço partilhado e a ausência de agitação social compensem economicamente as perdas de rendimentos do estado devidas à fuga de capitais.

O argumento usado pelo TC Francês (de direita) de que este imposto vai contra o principio de igualdade (igualdade cívica, entenda-se, não igualdade numa perspectiva económica) poderá ser correcto, porque visa um grupo particular de cidadãos de forma descriminatória. Mas não aplicar o imposto atenta igualmente contra esse mesmo princípio.

E sim, Miguel, sei o que vais responder. Que eu sou um ignorante, um "esquerdalha", vais repetir 3 vezes a expressão "Santa Ignorância" e ficares admiradíssimo como é que alguém com educação não percebe verdades elementares, irás possivelmente desbobinar teoria económica como um membro do PCP desbobina citações de Lenine, mas pronto, aqui fica um ponto de vista (e não, mil vezes não, isto não foi um ataque ad hominem, ok)

Feliz 2013 para ti e que este ano te traga muito sucesso (excepto na política, claro :) )

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De Miguel Nunes Silva a 2 de Janeiro de 2013 às 00:32
Não, não dizer nada disso porque pelo menos o teu argumento é pensado e não baseado em fantasias económicas.

Mas neste caso ainda que seja feito em benefício da classe média, a medida arrisca alienar a classe alta assim como o IDE.

E assim já começa a parecer contra-producente...

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De Hugo a 2 de Janeiro de 2013 às 11:24
Mas lá está, a política não é só economia. Se esta medida assegurar alguma coesão e estabilidade social é bem vinda, ainda que possa não ajudar a uma melhoria da situação económica.

Agora, claro que há uma falta de tacto de alguns membros do governo. Em vez de chamar "minable" ao Gérard Depardieu o PM Francês devia ter usado tacto e humildade, pedir até desculpa pelo exagerado imposto mas apelar ao patriotismo da classe alta e à compreensão da situação dificil e talvez oferecendo garantias de que o imposto será provisório.

Quando um governo vai ao bolso de alguém, seja classe alta ou média, convém explicar repetidamente e como se fosse a uma criança de 5 anos porque é que isso está a ser feito em vez de esperar que a população em geral perceba as lógicas adjacentes a essas medidas. Se não se insistir até à exaustão nesta pedagogia, a porta fica aberta a todo o tipo de populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vão alimentar-se da (compreensível) resposta emocional das pessoas (ricas ou pobres) face à austeridade.


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