Sábado, 22 de Setembro de 2012
A Direita é Ingénua

Há uns anos atrás, em conversas de meios conservadores, a interpretação da realidade era de uma resignada constatação do estado das finanças do país e de um certo schadenfreude por se ter a certeza que mais cedo ou mais tarde o país iria acordar para o triste destino ao qual a esquerda o estava a votar.

 

 
Os sentimentos expressos eram de pena, de resignação ao caminho para a bancarrota mas apesar do derrotismo, também de alguma esperança. Se por um lado eleições como a de 2009 provavam que os eleitores Portugueses não se sabiam comportar em democracia, premiando com vitórias eleitorais quem mais bugigangas lhes prometesse em vez de elegerem a pessoa mais responsável para gerir um património comum, por outro lado havia a certeza de que depois de a governação socialista implodir o país as coisas apenas poderiam mudar para melhor para a direita - o pequeno consolo de que ainda que a guerra pelo presente do país estivesse perdida, a guerra pelo futuro seria ganha; havia o consolo de que ainda que a guerra pelo país estivesse a correr mal, os livros de história haveriam de premiar o nosso lado da batalha ideológica - uma variante do "viveram antes do seu tempo". 

Mas este anacronismo, estes prematuros históricos, amaldiçoados com o mau timing de quem "tem razão antes do tempo", estão agora a acordar para um pesadelo dentro de outro pesadelo: a inoportunidade histórica da direita ainda não acabou!...

 

Na verdade as nossas expectativas estão a ser goradas por nossa própria culpa pois não me lembro de alguém alguma vez ter previsto a reacção da esquerda ao fim do socialismo do caviar. Regozijáva-mo-nos por derradeiramente sermos aclamados pela nação, mas nunca pensámos no que faria o outro lado da divisão ideológica. Será que estava implícito que baixariam a cabeça e sairiam em vergonha? 

 

Eu compreendo muito bem a reacção de Duarte Marques quando exige pedidos de desculpa do PS, e a daqueles que querem que os governantes sejam responsáveis criminalmente pelos desfalques que cometem.

 

Mas devo fazer mea culpa: devo porque quando durante a era Sócrates eu escrevia críticas ao PS por deixar as Socranettes afundarem o país, eu julgava que era apenas Sócrates e o seu círculo que eram desonestos. Por desgostar de teorias da conspiração, nunca me ocorreu culpar toda a esquerda.

 

O problema é que a era Sócrates acabou há um ano e perante a verdade brutal da vitória ideológica da direita na última batalha que deveria enterrar de vez os delírios socialistas, a esquerda está de volta sem qualquer semblante de embaraço. Mas porquê? Devemos atribuir a gritante hipocrisia a fanatismo ideológico? Será puro posicionamento eleitoralista? Será tacticismo destinado a impedir que a direita corte o menos possível no sector social do estado?

 

 A esquerda recorre a tudo aquilo que pode ser confundido com argumentos: seja teoria da conspiração (os mercados conspiram contra Portugal especificamente) ou cortina de fumo (corrupção dos políticos, investimento na defesa). Mas o dogma sagrado, o sacrossanto intocável é o sector social do estado. Que ninguém toque na segurança social, educação, saúde, administração pública - também conhecidos por 70% do orçamento de estado and counting e/ou causa primária do crescimento da dívida ... Isto une toda a esquerda.

 

A mesma esquerda que defende a sustentabilidade climática e ambiental não quer saber da sustentabilidade financeira. Esta é simplesmente demasiado inconveniente ou anátema.

Mas que esperança há num país se este não consegue aprender com o mais básico dos exercícios de empirismo: a inviolabilidade da aritmética?

Que deve a direita fazer? Jogar o mesmo jogo sujo e tentar vencer a batalha falando mentira? Prometendo o que não pode ser cumprido? Continuar a oferecer austeridade por princípio e em detrimento próprio?

 

Seja qual for o resultado, a reacção da esquerda Portuguesa augura tempos muito maus para Portugal e um futuro extremamente doente. 



uma psicose de Miguel Nunes Silva às 01:16
link directo | psicomentar

20 comentários:
De Carlos Ferraz a 22 de Setembro de 2012 às 17:21
juste un tout petit rien...

ao certo de que Direita fala? (e ao certo em que se distingue da Esquerda...)

|

De Miguel Nunes Silva a 22 de Setembro de 2012 às 18:54
Caro Carlos,

se para si, Sócrates e Manuela Ferreira Leite são a mesma coisa, nada que eu possa dizer lhe vai mudar a opinião.

...pas si petit...

|

De Eduardo F. a 22 de Setembro de 2012 às 19:50
Desculpar-me-á o autor do post mas a pergunta do comentador Carlos Ferraz é inteiramente pertinente.

A verdade é que a direita portuguesa, assente a poeira da retórica (mesmo aí, sem dúvida que medíocre), apenas se tem limitado a uma gestão mais realista que aquela que lhe precedeu no governo. Mas não é de excluir que, muito provavelmente, talvez o mesmo sucedesse se, em situação de soberania limitada como é a que vivemos, o PS tivesse continuado no poder (com Sócrates ou sem ele).

Sou daqueles que acha que o resultado das eleições de Junho de 2011 proporcionou condições - como poucas vezes terá acontecido ou voltará tão cedo a suceder - para levar por diante um verdadeiro programa de reforma do Estado. Logo na primeira vez que houve oportunidade para a formulação dessa estratégia, na divulgação do Documento de Estratégia Orçamental no final de Agosto de 2011, o que verificámos foi um vazio de ideias e, necessariamente, de vontades.

Agora, estamos no que estamos. A Direita não é apenas ingénua. Ela é antes muito parecida com a Esquerda.

|

De Miguel Nunes Silva a 22 de Setembro de 2012 às 21:20
Eduardo,


Tem alguma razão naquilo que diz mas o problema é que ainda que a direita não tenha a coragem de fazer o tudo o que deve ser feito, a esquerda nem sequer concorda que o que é difícil DEVE ser feito.

A direita Portuguesa tem que ganhar eleições e está feita refém do populismo mas pelo menos a sua ideologia é sã.
A esquerda é quem desencaminha ainda mais um sistema que perpetua as suas próprias tendências suicidas.

|

De Carlos Ferraz a 23 de Setembro de 2012 às 17:56
A pergunta mantém-se e coloca-se naturalmente no plano das ideias.

En passant,

quais são as reformas difíceis que não têm a concordância da Esquerda?


|

De Miguel Nunes Silva a 23 de Setembro de 2012 às 21:48
Obviamente, os cortes no sector social.

|

De Carlos Ferraz a 23 de Setembro de 2012 às 22:21
un tout petit rien très amusant :)

A pergunta inicial mantém-se...

Quantos aos cortes sociais... quais são ao certo?


|

De Miguel Nunes Silva a 24 de Setembro de 2012 às 15:26
Eu não percebo o que é ambíguo na minha resposta.

Cortar na educação, implica fechar escolas e despedir professores, cortar na saúde e segurança social, a mesma coisa...


|

De Guillaume Tell a 24 de Setembro de 2012 às 22:36
O problema da Direita portuguesa é justamente que ela não tem ideológia , não tem guiões (isto tudo para não dizer que não tem valores e princípios).

O que reina é o pragmatismo podre, é o clientilismo selectivo, é a falta de cultura e de interesse pela filosofia, a falta de rigor. Nós precisamos mesmo de iniciarmos esse debate e de começarmos a sermos coerentes com nós próprios.

Pouco adianta dizer que a Direita portuguesa é menos irresponsável, o facto é que ela continua a o ser. Basta olhar para a execução orçamental até Agosto.

contascaseiras.blogspot.ch /2012/09/o-estado-nao-para-de-crescer.html

O socialismo (este é só um dos vários nomes do colectivismo que grassa por cá há pelo menos 2 séculos) continua em marcha e só acabará (pelos vistos) quando o Estado desaparecer brutalemente , com todas as consequencias que rupturas brutais originem.


De Miguel Nunes Silva a 25 de Setembro de 2012 às 16:49
Guillaume,


Em parte concordo, em parte não.

Eu defendi aqui a outra ala do partido quando foram as eleições internas e fi-lo por algum motivo.

Mas dito isto, também me irrita que atribuam ao PPC e ao PSD, a mesma responsabilidade que exigem aqueles da esquerda que têm passado as últimas décadas a defender as políticas que criaram o buraco aonde estamos.
O PSD não fez isso. Quando muito podem acusar o PSD de hipocrisia por ter dito uma coisa e não ter sido consequente com a sua retórica. Mas não é bem pior a esquerda quem nem sequer o caminho certo é capaz de ver?


De Guillaume Tell a 25 de Setembro de 2012 às 22:11
Miguel, respondo-te da mesma forma que tú. Concordo em parte e discordo de outra.

É certo que é injusto haver quem estime que o PSD tem tantas ou mais responsabilidades que o PS para o estado actual. No entanto não podemos ignorar o facto que nos também ajudamos a trilhar esse caminho, que ouve muitas coisas que sabiamos que estavam erradas e que, quer por clientelismo, oportunismo, preguiça intelectual ou mesmo medo dos outros e seguimos alegramente nessa deixa.

Nós não podemos ignorar que o PSD de Sá Carneiro e Balsemão foi ao mesmo tempo completamente incapaz de travar o rumo, como tomou medidas que acelararam o regresso do FMI em 1983. Não podemos esquecer que a partir da exclusão de Miguel Cadilhe, Cavaco Silva aumentou feito bruto o peso do Estado e desperdiçou uma ocasião de ouro para rever as nossas instituições e a linha doutrinária do partido. Não podemos fingir que Barroso não foi um mentiroso compulsivo, oportunista que fugiu cobardamente das suas responsabilidades. Não podemos responder quando nos dizem que Passos Coelho é um fraco quando está a curvar a espinha perante o baronato.

Que o PS governe mal isso não é segredo para ninguém, está inclusive no ADN deles. Que a extrema-esquerda portuguesa é profundamente reaccionária e totalitária é já um dado adquirido. Que o CDS é um catavento eleitoral que tem por único princípio lixar o PSD de maneira a ocupar o seu espaço político todos estão informados. Que a comunicação social, os artistas, os meios da cultura, os parceiros sociais, os servidores da justiça, os sindicatos, as confederações patronais, os médicos e parte substancial do povo é ferenhamente estatista, piega e "racista" (querem tudo para eles e os outros a pagarem por eles), não é uma supresa como é a consequencia da forma como governamos Portugal.

Tudo isto é sabido e infelizemente não está prestes a mudar rapidamente. Mas é porque sabemos isso tudo, porque conhecemos os nossos defeitos, porque somos capazes de dizer em quê erramos que não podemos falhar ou nos queixar dos outros. E é porque sabemos e somos assim que nos devemos de governar bem.

Só nós sabemos ou podemos governar bem, por isso quando PSD governa mal merece ser criticado, insultado duas vezes mais que os outros, porque o que espera o povo português é que sejamos os melhores!

|

De Miguel Nunes Silva a 25 de Setembro de 2012 às 23:01
Dessa última frase é que eu duvido muito....

|

De Guillaume Tell a 26 de Setembro de 2012 às 21:32
É certo é uma frase bonita de lançar num congresso ou para a comunicação social :)

Mas na mesma eu penso que devemos ser sempre mais exigentes com o PSD, os outros só fazem asneiras por isso se queremos ter um país aonde vivemos bem temos de ser constantemente exigentes, logo temos de ser exigentes com o PSD.

|

De Miguel Nunes Silva a 27 de Setembro de 2012 às 08:50
Pois mas sabes Guillaume, numa altura em que tanto está em jogo, acho que é irresponsável criticar as únicas pessoas que estão a tentar fazer alguma coisa de responsável.

|

De Guillaume Tell a 27 de Setembro de 2012 às 14:08
Miguel, eles nem sequer fazem algo de responsável!
Viste os números da execução orçamental até Agosto, o défice é inteiramente reduzido graças ao aumento da receita fiscal, a despesa aumentou na mesma (!!!) e as contas não estão piores graças só do corte dos subsídios aos funcionários e aos pensionistas.

Quantos institutos foram eliminados ou viram ser reduzidos consideravelemente os seus apoios? Quanto é que foi cortado nos "políticos"? Quantas empresas muncipais foram encerradas? Para quando estão previstos as privatizações no SEE? Que mudanças de fundo tivemos nos na Saúde, na Educação e na Segurança Social, para um sistema mais leve, mais concorrencial e com mais possibilidade de escolha? Para quando estão previstos as simplificações legais e respectiva redução da legislação?

Estou mais que farto de ouvir desculpas para justificar o estado miserável no qual o meu país está. Que raio de mentalidade de perdedor e de falhado é essa? Quem é que se vangolariza de ter uma nota miserável sob o pretexto que "o professor era um incapaz", que "fiz mal porque os vizinhos impediram-me de dormir", ou ainda que "é mau mas não tanto que os outros"? E depois admirai-vos que Portugal não passe da cepa torta?!

|

De Miguel Nunes Silva a 27 de Setembro de 2012 às 15:04
Guillaume, lembra-te quando criticas o PSD, que estás a deitar abaixo os únicos que tentam trazer alguma medida de sustentabilidade ao estado Português.

Se lá quiseres o Sócrates ou o Seguro, vai em frente e boa sorte.

|

De Guillaume Tell a 29 de Setembro de 2012 às 17:13
Desculpa? O Governo e o PSD são os únicos a preocuparens com o país? O Governo e o PSD demostram ser incapazes para cortar a sério, mesmo no simbólico (ver o caso das Fundações), eu e tantos outros temos de ficar calados porque eles estão a fazer menos mal que os outros?

Quer dizer, seguindo o teu raciocíno, quando Sócrates andava antes das eleções a dizer que "a culpa não é minha, veio uma crise internacional e o Estado está à beira da bancarrota porque o PSD não aceitou o PEC 4" nós deviamos ter apioado aquilo. Tá boa tá...

Tú contentaste com um Governo que se limita a gerir o declíno do Estado, eu não!

|

De Miguel Nunes Silva a 30 de Setembro de 2012 às 10:15
Bom, da maneira como eu vejo as coisas tu vais ter de te calar a um certo ponto.

Ou te calas agora e não sabotas o único governo que está realmente a tentar resolver alguma coisa ou te calas mais tarde, quando o PS voltar ao poder e nem sequer tentar resolver as coisas.

Ou és responsável ou perdes autoridade moral...

|

Comentar post

Notícias
Psico-Social

Psico-Destaques
Psicóticos
Arquivo

Leituras
tags
Subscrever feeds
Disclaimer
1- As declarações aqui pres-tadas são da exclusiva respon-sabilidade do respectivo autor.
2 - O Psicolaranja não se responsabiliza pelas declarações de terceiros produzidas neste espaço de debate.
3 - Quaisquer declarações produzidas que constituam ou possam constituir crime de qualquer natureza ou que, por qualquer motivo, possam ser consideradas ofensivas ao bom nome ou integridade de alguém pertencente ou não a este Blog são da exclusiva responsabilida-de de quem as produz, reser-vando-se o Conselho Editorial do Psicolaranja o direito de eliminar o comentário no caso de tais declarações se traduzirem por si só ou por indiciação, na prática de um ilícito criminal ou de outra natureza.