Quinta-feira, 1 de Março de 2012
A dívida pública e a dívida privada ... o caso das autarquias!
Costuma-se falar muito da dívida pública e da necessidade de Portugal cumprir o que fixou no memorando com a troika. Contudo, tantas vezes se esquece uma questão muito importante, que se prende com o stock de dívida privada, seja esta detida pelas famílias ou pelas empresas privadas. E no gráfico conseguimos perceber que o assunto ganha, também, especial relevo no caso português, uma vez que Portugal se apresenta com um dos maiores níveis de endividamento privado em percentagem do PIB, na Europa.
Mas vamos aos números... a dívida pública portuguesa representa 138% do PIB, incluindo o sector empresarial do Estado (27%) e excluindo o sector financeiro do Estado. Aquele valor significa qualquer coisa como 235 mil milhões de euros.
Contudo, a dívida privada assume uma percentagem manifestamente mais assustadora... 280,3% PIB, isto é, famílias e empresas privadas são responsáveis por 479 mil milhões de euros (excluindo-se o sector financeiro privado).
Por aqui se percebe que qualquer medida de ordem fiscal deve ser muito bem ponderada, porquanto se depreende dos dados apresentados que os portugueses estão sobreendividados, muito para lá do que seria desejável.
E, note-se que se a Itália, por exemplo, se apresenta também com um endividamento público elevado, esta dívida está porém internalizada, sendo detida pelos italianos. O mesmo não sucede com Portugal, onde quer o sector público, quer o sector privado estão muito endividados, encontrando-se os seus credores no exterior.
Um outro assunto que merece, igualmente, apontamento é o que se prende com o endividamento das autarquias e regiões, tantas vezes apelidadas de responsáveis pela crise portuguesa. Contudo, vistos os dados, a dívida pública da responsabilidade das autarquias e regiões é de apenas 8,2% PIB, isto é 14 mil milhões de euros. Note-se que quando comparado com as empresas públicas (RTP, REFER, Estradas de Portugal,...), falamos de um valor muito inferior.
Os dados evidenciados demonstram a necessidade de políticas que estimulem a poupança, visto que a taxa de poupança em Portugal ronda os 8% do PIB, contrastando com os cerca de 22% da Alemanha, Áustria, Holanda e Luxemburgo.
Fonte: dados do Banco de Portugal e gráfico do Eurostat.
De k. a 2 de Março de 2012 às 09:55
Ena pá!
Excelente post.
Que demonstra que o individamento público, embora excessivo, não foi causado apenas por idiotice politica - Agentes privados não são idiotas, mas endividaram-se à parva.
Certamente, porque acharam que issso era "bom" - porquê?
O que leva um agente economico a achar algo bom? Os incentivos que há para ele "achar"
Neste caso, os incentivos foram ao nível da taxa de juro (monetario) que é controlado a nivel do BCE.
A arquitectura do Euro, além de nos prejudicar ao nivel das exportações (isso era sabido à entrada), tambem nos prejudicou a um nivel mais fino, taxas de juro excessivamente baixas, que levaram a um endividamento geral da economia.
Os "mercados" cometeram o erro de interpretar que com o Euro, estavamos todos no mesmo barco e seriamos solidarios (dai as taxas de juro de Portugal terem caido para niveis "alemães"), mas a realidade demonstrou que isso assim não é (aliás, quem lesse os tratados via isso, a estrutura do Euro está mal concebida do inicio).
Enfim, e eu estou a hiper-simplificar.
Mas não sou tão mau quanto aqueles que dizem "ugh southern europeans in debt, southern europeans lazy!"
Também não ajuda - nada - não só termos taxas de juro ridículas, sermos taxados de uma forma estúpida pela poupança que fazemos, ou não podermos confiar 100% nos bancos.
O estímulo para a poupança deveria ter sido dado ontem e não hoje.
Hoje estamos já demasiado endividados, o que prejudica também a Economia (convém gastar dinheiro também)...
Enfim.
É de facto uma mistura explosiva... temos de reduzir o endividamento público e privado e temos de poupar e ao mesmo tempo investir... no entanto, se conseguirmos gerar poupança privada ela acaba por ser canalizada pelos Bancos e entidades financeiras para investimento... aliás, é muito mais saudável se dependermos internamente do financiamento de nacionais do que do exterior...
Pagar 4€ de imposto por receber 30 de juro é uma idiotice.
Não é à toa que ando a pensar exportar o meu dinheiro para a Finn-land.
E também se deve à falta de confiança no sector bancário. Exemplificando, a CGD e o BES nos últimos meses andaram a mandar extractos aos clientes que tinham poupanças mais generosas, nos quais se esqueciam de incluir algumas dezenas de mil euros que faziam parte dessas poupanças.
Naturalmente os que prestam mais atenção ao pessimismo noticiário acabam a pensar que do esquecer se avança para o apropriar.
Algum de vocês tem confiança que as poupanças estão seguras nos nossos bancos? Please share your thoughts com uma leiga.
De Bruno Duarte a 2 de Março de 2012 às 18:41
Isso é tudo muito bonito, mas é uma tentativa falhada de desviar a questão!
A dívida pública é = a mais impostos!
A dívida privada é = a investimento que pode e deve ser reprodutivo!
A dívida privada tem meios de ser restringida, cobrada e escrutinada, a dívida pública tem servido para alimentar obras faraónicas e empregos para os menos capazes!
Caro Bruno respeitando o que dizes, julgo que a questão é tudo menos irrelevante... Se é verdade o que possas dizer sobre a forma como se gastou muito dinheiro público, não é menos verdade que o esforço que possa ser exigido aos portugueses, desde logo via impostos, não pode e não deve desconsiderar a taxa de esforço elevada a que já estão sujeitos, fruto dos seus compromissos... Outra questão relevante prende-se com os fracos incentivos dados à poupança. E repara num outro aspecto, se a poupança fosse elevada talvez não necessitássemos de recorrer a tanto financiamento externo...
“Pagar 4€ de imposto por receber 30 de juro é uma idiotice.”
Parece que a Essi tem um erro nas contas. 21.5% de imposto sobre rendimentos dá um bom bocado mais.
“A dívida privada é = a investimento que pode e deve ser reprodutivo!”
Será? Até aqui, a divida privada , foi essencialmente utilizada para o consumo seja particular ou empresarial e pouco para o investimento. Se tivesse havido verdadeiro investimento, nunca teríamos chegado ao ponto onde hoje nos encontramos e teríamos empresas mais competitivas. Logo, fazer uma afirmação dessas, é uma falácia.
“a dívida pública tem servido para alimentar obras faraónicas e empregos para os menos capazes!”
Completamente de acordo, só que esta situação não é de ontem mas sim desde que começou a entrar dinheiro da Comunidade Europeia ás toneladas.
Sabes, nem reparei que pus um 4 em vez de um 6. Mais razão me dás.
De Guillaume Tell a 5 de Março de 2012 às 20:58
Ui o K tá em forma, há muito que não o via raciocinar tão bem.
Mesmo ainda algumas falhas, ou esquecimentos, no seu raciocínio:
"O que leva um agente economico a achar algo bom? Os incentivos que há para ele "achar"
Neste caso, os incentivos foram ao nível da taxa de juro (monetario) que é controlado a nivel do BCE."
Efectivamente, mas também temos de lembrar que o endividamento privado foi também patrocinado indirectamente pelo Estado. Primeiro pela própria estrutura do Estado, a sua organização > ex. a má gestão nos transportes públicos + a disponibilização de estradas e autoestradas sem custos para o utilizador + o laxismo em relação ao estacionamento salvagem + juros ao consumo a descer = incentivo para adquirir carro próprio (como impossibilidade de fazer de outra forma). Segundo, o endividamento e investimento público e as privatizações motivaram bancos e constructoras privadas a se endividarem para disporem das ajudas estatais (endividarem-se porque a poupança foi-se abaixo, e porque poderam, via BCE é certo, se endividarem para terem as rendas estatais).
"A arquitectura do Euro, além de nos prejudicar ao nivel das exportações (isso era sabido à entrada), tambem nos prejudicou a um nivel mais fino, taxas de juro excessivamente baixas, que levaram a um endividamento geral da economia."
É em parte verdade. Mas o choque de competitividade era inevitável com a aparição no mercado mundial de novos concorrentes directos para Portugal, por isso o euro foi só um problema no início (e os dados mostram que a nossa economia acabou por habituar-se, álias se ainda hoje tinhamos o escudo teriamos problemas maiores de competitividade porque a nossa economia nunca teria começado a ajustar-se). Portugal devia ter iniciado o seu programa de transformação já antes de 1991, não fez porque causa do protecionismo, do escudo continuamente desvalorizado e da subsidiação de largos sectores empresariais. Depois de 1991, foi a continuação da subsidiação do sector não-transaccionável, via despesa pública.
"Mas não sou tão mau quanto aqueles que dizem "ugh southern europeans in debt, southern europeans lazy!"
A arquitectura europeia tem grandes responsabilidades no nosso estado actual, mas ninguém nos obrigou a entrar na UE ou no Euro (e a aceitar os fundos estruturais), nem a deixar o Estado se endividar à larga e a patrocinar o consumo a crédito e o sector não transaccionável. Quem é preguiçoso não é o povo português, são os seus dirigentes.
Em relação ao texto do Hugo Carneiro, é efectivamente muito bom. No entanto não precebo a minoração do endividamento autárquico. Está bem é "pouca" coisa, mas não podemos esquecer que as autárquias estão extremamente frágeis: a maioria tem receitas próprias excessivamente baixas
em relação às suas dívidas, têm atrasos de pagamento inaceitáveis, patrocinam multitude de empresas públicas de utilidade duvidosa em relação aos seus custos e demostram falta de transparência na publicação das suas contas. Não são responsáveis pela crise, mas em relação ao seu tamanho têm nela uma quota parte demasido importante.
A referência às autarquias não tem o intuito de menorizar o contributo dessas para os problemas do país. Aliás, talvez um dos próximos textos que escreva tenha precisamente que ver com o papel destas e a forma como a IGAL as fiscalizou durante anos... Contudo, tenho de protestar contra aqueles que dizem que o problema do país são as autarquias. A evidência dos números apenas quis demonstrar que, não esquecendo o contributo dessas, antes temos de olhar para outras realidades, como é o caso das empresas públicas.
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